ULISES CARRIÓN lilia prado superestrela

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De Appel, Amsterdam & de kunstenaar(s)/the artist(s)

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I. O poder político permite que uma cultura imponha seus símbolos sobre outras.

II. A comunicação, a grande mídia influem no êxito/fracasso dos produtos culturais.

III. Os artistas não podem influir na imaginação coletiva tal como é construída/manipulada por I, mas os artistas podem manipular II para transcender/superar os efeitos de I.

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QUEM ERA EU?

ULISES CARRIÓN ENTREVISTA LILIA PRADO, ESTRELA DE CINEMA  maio de 1984

 

Ulises Carrión: Lilia, diz pra mim, onde você nasceu e como chegou à Cidade do México?

Lilia Prado: Nasci em Sahuayo, na costa sudoeste do México. Dali, minha família se mudou pra capital, onde fui à escola. Sonhei em ser bailarina e assim viajar pelo mundo. Queria estudar música e dança, mas meu pai negou a sua autorização. Minha família tinha uma moral muito antiquada, muito estrita. Eu pensava que, quando fosse maior, não teria outro remédio a não ser entrar num convento. Porém comecei a trabalhar como telefonista pra ganhar meu próprio dinheiro.

UC: E como chegou ao mundo do cinema?

LP: Isso foi o destino! Nunca fiz nada pra chegar aqui, em parte por medo dos meus pais. Porém, um dia, andava pela rua e um produtor de cinema me viu. Eu estava falando com um grupo de pessoas e aí ele me olhou e me disse que talvez eu poderia participar de um de seus filmes. Uma das pessoas presentes disse que conhecia meu pai e que poderia colocá-lo em contato com ele. Passaram-se seis meses pra que viessem a minha casa falar com minha mãe. Ela convenceu meu pai com esse comentário: “Deixa ela, de todo jeito ela não está preparada pra isso. Não vai acontecer nada.”

UC: Li que primeiro você interpretou papéis pequenos. Foi necessário um grande passo para os papéis principais?

LP: Não, não. Depois desses poucos papéis secundários incluindo um muito pequeno em Tarzan e as sereias (filmado em Acapulco), consegui meu primeiro papel de protagonista em Confidencias de un ruletero (1949), com Resortes. A partir daí não parei mais de trabalhar.

UC: Você fazia mais de quatro filmes por ano…

LP: Até seis, isso por que os produtores não me deixavam fazer mais.

UC: Não era confuso para você ter tanta atenção do público depois da educação estrita que recebeu?

LP: Eu estava feliz demais para me concentrar nesse tipo de problemas. Meu nome em todos os jornais, parecia uma loucura! Porém isso não era tudo, tinha que trabalhar duro.

UC: Tem algum filme que marcou a sua carreira?

LP: Las mujeres de mi general. Antes eu tinha papéis para dançar e mostrar meu corpo. Enquanto o que eu preferia mesmo eram os papéis sérios. Aí fiz Subida al cielo, meu primeiro filme com Buñuel, com quem trabalhei em três filmes. A partir desse momento recusei todos os filmes musicais.

UC: Trabalhar com Buñuel foi diferente do habitual?

LP: Para começar, eu não tinha a menor ideia de quem era Buñuel. Por outro lado, quando me enviaram o roteiro, pensei em recusar o papel porque era muito pequeno. Mas quando tive a primeira entrevista com ele, mudei de opinião. Fiquei muito impressionada. Ele não me conhecia também, só tinha visto uma foto minha e tinha alguma informação sobre mim.

UC: Nesse momento Buñuel não tinha o prestígio que adquiriu mais tarde…

LP: Claro que não. Eu estava vivendo numa espécie de torvelinho, me sentia nas nuvens. Era tão jovem! Menina mal fui ao cinema, porque não era recomendável para meninas decentes, eu não sabia quem eram os diretores importantes. Depois da boa recepção de Subida al cielo em Cannes, tive ofertas da Itália: Dino de Laurentiis, Alberto Lattuada e Vittorio de Sica me enviaram roteiros escritos especialmente para mim. Não tive dúvida, recusei todos. Me dei conta de que tinha muito o que fazer no México ainda.

UC: Talvez tivesse medo?

LP: Não, só não sabia o que era bom para minha carreira.

UC: E depois? Recebeu ofertas?

LP: Sim, da França. Mas foi o produtor que me espantou. Eu estava em Cannes para o filme Talpa. Desde o momento que pisei no Carlton notei como ele me perseguia com seus olhares. Eu soube que depois de ver Talpa, ele pediu para ver Subida al cielo. Depois de Cannes, ele me convidou para encenar no seu chalé na Suíça. Meu vestido teria um grande decote na frente e nas costas. O produtor, sorrateiro, pôs a mão sobre meu estômago e eu dei um grito alto. Era o principal produtor de filmes da França e eu era tão jovem, tão inocente. Ficava muito surpresa com esse tipo de coisas que agora me fazem rir.

Mais tarde, soube que ele estava arrependido e que realmente tinha interesse em mim como atriz. Mas aí eu já não queria ter mais nada com ele. Também recusei um contrato exclusivo com um produtor de Hollywood. Todo mundo pensou que eu estava louca. Mas prefiro trabalhar no México e não quero viver longe da minha mãe.

UC: Me conta sobre Rumba caliente.

LP: Eu gosto desse filme mas a filmagem não foi tão agradável. Meu coprotagonista, Resortes, era já uma estrela e tinha mais diálogo que eu. Além disso, era comediante, acostumado a improvisar, o que para mim era impossível. Mas o filme foi um grande sucesso.

UC: Garcia Riera, o historiador mais importante do cinema mexicano, disse que Rumba caliente é o melhor filme do genero cabaretero.

LP: Pode até ser, não sei. Sei que ele me apreciava como atriz. Ele sabia que eu construí minha carreira sem nenhum tipo de formação.

UC: Sem dúvida, o papel em Las mujeres de mi general é o mais forte dramaticamente. E esse foi um de seus primeiros filmes.

LP: O diretor, Ismael Rodriguez, me advertiu que para este papel eu teria que estudar muito. Porém, honestamente, sou muito preguiçosa para estudar. Ele sabia disso muito bem, no final de cada dia de trabalho, me dizia: “Muito bem, mas sei que isso é devido apenas a sua intuição. Tenho anos de experiência no cinema, você não me engana.”

UC: E como foi com as outras duas estrelas em Las tres alegres comadres?

LP: Eu fui bem paga, mas a primeira no cartaz era Amalia Aguillar, a bailarina cubana. Estávamos na filmagem quando a publicidade em torno do sucesso de Subida al cielo estourou em Cannes e chegaram as ofertas da Itália. Hordas de jornalistas chegavam aos estúdios. Eles tratavam para que Amalia Aguilar e Lilia del Valle também entrassem nas fotos. Mas elas ficaram terrivelmente enciumadas e fizeram a vida impossível com todo o tipo de truque sujo (apesar de a vida já ser bastante difícil).

Naqueles tempos, para as cenas de baile nos filmes, não havia uma coreógrafo contratado. Me queixei com o produtor: “Por que não contratar um coreógrafo pra que a gente não passe ridículo no filme? Não vou mais fazer filmes musicais.”

Desde então recusei todas as ofertas, não importa o quão generoso pudesse ser o salário. Achei um insulto o apelido de rumbera. Quando, junto a outras dez meninas, fiz uma audição para Las mujeres de mi general, eu era quem menos oportunidades tinha, porque era a menina bobinha com pernas bonitas. E quando Ismael Rodriguez finalmente me escolheu, me advertiu: “Se o filme fracassar por sua culpa, eu te mato.”

UC: Mas o filme foi um grande sucesso.

LP: Sim, e me fez mais forte, mas nunca mais dancei. Desde então me movimentei com cautela. Como dizia Buñuel: “Os filmes muito bons são raros, mas você deve seguir trabalhando.”

UC: Você sabia que alguém como Buñuel era uma figura excepcional na indústria comercial do cinema mexicano?

LP: Não tinha consciência de quem era ele. Mas ficou logo claro que ele era diferente. Quando nós, os atores, fazíamos o melhor possível, ele dizia: “Não, não, não, não, eu não quero um espetáculo de atores. Quero gente normal, como vocês são na vida real!” Além disso, Buñuel me conhecia. Me pediu para que eu não levasse a sério o filme e que era para “brincar” com a atuação. Respondi que eu era uma atriz séria e que não podia “brincar” com a minha atuação. Porém tudo o que eu fiz “brincando”, ele aceitou (é certo que ele conseguiria de mim tudo o que tivesse vontade).

Em uma das últimas cenas, senti que eu precisava segurar uma maçã nas mãos. E então comecei a falar enquanto cuspia pedaços de maçã! Claro que fui me desculpar e ele me disse: “Mas isso era exatamente o que eu queria.” Há muito mais detalhes no filme que dizem respeito a mim. Ao final, ele me disse: “Não entendo o que você fez e eu gostaria muito de saber como você conseguiu dar uma conotação sexual pro meu filme. Essa não era minha intenção original…” Buñuel tinha um grande senso de humor, enquanto eu me levo muito a sério.

UC: Mas você sabia provocar uma grande impressão no público.

LP: Não sabia, não! Nunca me dei conta da intensidade desse efeito. Agora ouço dizer que era popular. E, ainda assim, cá comigo penso que querem me persuadir com essas histórias. Só agora me dou conta de quem eu era e pelo que passei!

LILIA PRADO SUPERESTRELA  setembro de 1983

DESCRIÇÃO

O projeto consiste na organização de um festival de cinema. O festival acontece em um só dia em qualquer cinema de Amsterdã.

O propósito do festival é oferecer um panorama de uma atriz em particular, isto é, o festival consiste em seus 5, 6 ou 7 filmes mais importantes, que serão exibidos num mesmo dia.

A atriz que será homenageada neste festival é uma estrela mexicana de cinema de segunda dos anos quarenta ou cinquenta.

A atriz será convidada a assistir ao festival e, entre dois filmes, recebe uma homenagem que consiste, por exemplo, em um discurso e algumas flores.

MOTIVAÇÃO

Durante os anos quarenta e cinquenta, o México (o maior produtor de filmes entre os países hispanofalantes) produzia uma média de cento e cinquenta filmes por ano.

A qualidade de tais filmes é extremamente baixa, mas mostra uma grande vitalidade.

Uma indústria fílmica com tanta produtividade requeria uma grande quantidade de escritores, decoradores, técnicos, todo tipo de trabalhadores especializados e, naturalmente, estrelas.

Havia um pequeno número de filmes de boa qualidade, não devemos nos esquecer que Buñuel trabalhava no México naqueles anos.

Porém, o México, por ser um país subdesenvolvido (de segunda), não poderia impor sua produção de cinema (isto é, sua imagem, seus padrões, sua cultura, seus valores) ao resto do mundo, como Estados Unidos, França etc.

Quero revelar que a razão pela qual tal “estrela” continua sendo desconhecida do resto do mundo não é porque ela seja de segunda, mas sim porque o México é de segunda.

Quero usar uma estrela de cinema de segunda (em lugar de uma de primeira classe) com a intenção de expressar, sublinhar, encarnar a posição de segunda do México como país e como cultura.

O que apresento é válido para qualquer outro país subdesenvolvido. Escolhi o México porque, como mexicano, conheço muito bem esse país e seus filmes.

A ATRIZ

Estou usando aqui o nome de uma estrela de cinema de segunda (Amanda del Llano) dos anos quarenta e cinquenta só como exemplo. Há dezenas de atrizes que seriam adequadas. [Nota: a escolhida foi Lilia Prado]

Eu teria que ir ao México para investigar as pessoas e filmes desse período, além da disponibilidade.

Tentaria esclarecer à atriz escolhida que não procurarei enganá-la, que meus propósitos são sérios. Mas, para poder aceitar colaborar em meu projeto, ela deverá ter certo senso de humor. (O que quero dizer é que é provável que eu tenha que falar muito com ela.)

No caso de a atriz não puder ou não quiser vir à Holanda, outras soluções são possíveis: por exemplo, gravar para cinema uma entrevista e mostrar essa entrevista como parte do festival.

De Appel:

Requereria assistência da De Appel para o seguinte:

  1. organização do festival (sala de cinema etc)
  2. publicidade (os canais usuais)
  3. documentação (impressa ou outra)
  4. gastos de viagem para a atriz (incluindo dois ou três dias em Amsterdã)
  5. gastos de viagem meus.

Tempo: março de 1984 ou qualquer data posterior.

 

Ulises Carrión

Tem Katestraat 53, Amsterdã

tel. 020-121233

liliapradosuperestrella

De Appel, Amsterdam & de kunsternaar(s)/the artist(s)

A entrevista foi realizada no México, em maio de 1984, e publicada no catálogo do Lilia Prado Superstar Filmfestival (De Appel, Amsterdã, junho de 1984). A tradução feita do holandês para o espanhol é de JJ Agius. Ulises Carrión. Lilia Prado Superestrella y outros chismes. Organização de Heriberto Yépez e JJ Agius. Cidade do México: Tumbona, 2014. A entrevista também foi publicada na Vice México. Para genero cabaretero ver Maurício de Bragança. “A canção mexicana nos filmes de cabaré”. In: Contemporânea Revista de Comunicação e Cultura, v. 12, n. 2, 2014

/tradução de thadeu c santos

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LILIA PRADO SUPERSTAR FILMFESTIVAL BRASIL

SUBIDA AL CIELO, Luis Buñuel (1952)

LAS MUJERES DE MI GENERAL, Ismael Rodríguez (1951)

RUMBA CALIENTE, Gilberto Martínez Solares (1952)

LAS TRES COMADRES ALEGRES, Tito Davison (1952)

TALPA, Alfredo B. Crevenna (1956)

CONFIDENCIAS DE UN RULETERO, Alejandro Galindo (1949)

 

 

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