DANIEL MAYRIT você nunca viu a cara deles

VOCÊ NUNCA VIU A CARA DELES

As últimas décadas do século XX testemunharam a erosão da ideia de veracidade, originalmente atribuída à imagem fotográfica desde seus primeiros dias. Isso se deve, entre outras razões, a chegada e expansão da tecnologia digital. No entanto, nos últimos anos, a mesma tecnologia digital parece estar revertendo essa tendência. Desde a emergência das redes sociais e da impressionante democratização dos recursos de fazer-imagem, a fotografia tem recuperado sua capacidade de oferecer testemunhos, de mostrar e dividir com o mundo o “eu estive lá”.

No entanto, não foram somente serviços como os do Google ou do Facebook que circularam ao redor do status quo. No contexto social atual dos Países Ocidentais, é a combinação de tecnologia com os arranjos sociais por trás das imagens o que tem dado à fotografia sua poderosa autoridade. Nesse sentido, Você nunca viu a cara deles concentra a atenção em outro meio da produção em massa de imagens, o qual está envolvido em questões semelhantes: as câmeras de vigilância. Meses após os London Riots, a polícia metropolitana divulgou folhetos retratando jovens que, presume-se, participaram dos atos. Imagens de baixíssima qualidade, quase amadoras, foram revestidas de uma autoridade inquestionável tanto pelos equipamentos usados para captá-las quanto pela instituição que as distribuiu. Mas, na realidade, o que realmente sabemos sobre essas pessoas? Não temos o contexto ou a explicação dos fatos, mas ainda assim assumimos, sem nos dar conta, a culpa desses jovens porque eles foram “pegos pelas câmeras”.

Você nunca viu a cara deles procura se apropriar das características da tecnologia de vigilância para criar uma série bem diferente de imagens. O assunto tratado não é o alvo usual das câmeras de vigilância, mas uma lista das 100 pessoas mais poderosas da cidade de Londres (de acordo com levantamento anual da revista Square Mile). É indiscutível que as pessoas aqui fotografadas representam um setor considerado, por uma percepção coletiva, como responsável pela atual situação econômica, mas que, no entanto, ainda vivem em um confortável anonimato. A partir daqui as questões levantadas seriam semelhantes às anteriores: da mesma maneira que não podemos saber se os jovens acusados pela polícia são realmente criminosos, não podemos assumir que os indivíduos aqui retratados sejam desonestos ou tenham algum envolvimento com os atuais escândalos financeiros. A série se concentra em como um sistema de produção de imagens como o das câmeras de vigilância determina o modo como os espectadores interpretam o contexto que envolve as imagens. Nós interpretamos as imagens da mesma maneira quando apresentadas em folhetos da polícia e quando são apresentadas em outros meios? Faz diferença quando a polícia assume a autoria das imagens de quando o autor é um artista? O quanto a tecnologia envolvida afeta a leitura das imagens? São as características inerentes desse tipo de imagem que lhe conferem sua veracidade? O que acontece quando essas imagens são replicadas com outros mecanismos desviantes de manipulação digital?

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DANIEL MAYRIT (Madri, Espanha, 1985): You Haven’t Seen Their Faces >>>

/tradução de joão borogan

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