ULISES CARRIÓN E OCTAVIO PAZ plural 16

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Amsterdã, 18 de setembro de 1972

Estimado Senhor

Querido senhor Paz

Querido Octavio

Xirau me disse em sua última carta que você está interessado em meus textos. Bem, isso aconteceu mais de uma vez. Tenho que aproveitar a oportunidade. Por isso me atrevo a correr o risco de importuná-lo e envio, fora os textos anexados, outro livro meu em um segundo envelope. Os textos soltos, um, ou vários, ou todos, são os que proponho para a revista.* O livro vai simplesmente para que leia e me diga, se houver tempo, sua opinião. Estou faminto por opiniões. Me mantenho em dieta desde que comecei a escrever esse tipo de coisas que não sei como chamar. Não é para que pertença a um gênero novo, é que estão fundamentadas em um princípio diferente. Dos cinco textos que envio aqui, como poderá ver, o 1, o 2 e o 3 são literários propriamente falando; o 4 e o 5 são, por sua vez, vagamente teóricos, não sei se dá para publicar, na verdade não sei se devem ser publicados junto com os outros. O 1, o 2, e o 3 não querem dizer nada, não têm nenhum conteúdo sociológico, filosófico etc. São, simplesmente, estruturas linguísticas postas a descoberto. O 4 e o 5, como são teóricos, têm uma mensagem. Mas temo que esta carta fique confusa demais. É culpa minha, quisera eu explicar todos por cada vez.

Li o “Festín de Esopo”** em inglês. Acredito que a poesia esteja sim convidada, mas deva ser uma poesia nova. Uma poesia consciente da distância que separa a linguagem da realidade. Porém, que não me diga nada sobre estar consciente. Hamlet já estava consciente: “Palavras, palavras, palavras.” Melhor, e mais breve, não se pode dizer. Agora a própria poesia deve ser a expressão dessa consciência, dessa distância, porém sem dizer com palavras que sofrem desse distanciamento que elas mesmas denunciam. Para mim cada texto é como um problema matemático: há uma incógnita a resolver. A incógnita é a possibilidade de dizer algo. As palavras não são nada além dos termos da fórmula. X é a possibilidade de dizer algo e deve ser resolvida de cada vez. Y tem várias maneiras de ser resolvida. Y, que até agora é o que chamam de poesia, é apenas uma dessas formas, e não é a melhor. Teria que comprovar isso. Uma piada, por exemplo, pode ter uma estrutura linguística tão rica, ou mais, que um soneto. Ou uma onomatopeia. Ou qualquer outra forma de linguagem que permita ir além das palavras. Uma piada não quer dizer algo mais do que um poema. Porém desnuda a linguagem de uma maneira mais clara, mais rápida, mais elegante; elegante, do jeito que os matemáticos usam essa palavra.

Ulises Carrión

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México, DF, 10 de outubro de 1972

Querido amigo:

Obrigado pela carta de 18 de setembro e, sobretudo, pelos textos que a acompanham. Me proponho a publicar em um número próximo da Plural – dezembro ou janeiro ou fevereiro: ainda não sei qual – alguns dos textos soltos. Me interessam muito, especialmente os que você chama de “vagamente teóricos” e que a mim parecem os mais literários. Os outros, precisamente por serem estruturas, não são propriamente literários a meu juízo. O literário é aquilo que as estruturas emitem. Claro, toda emissão verbal é significado (mensagem). O próprio da mensagem literária, acredito eu, é que ela contém sua própria negação: não “vale” (não é) como significado; seu valor (seu ser) se desdobra para além da significação. A literatura emite significados e apenas os emite, os apaga, os põe entre parênteses, você não acha?

O que faz você em Amsterdã? Pensa em voltar para o México?

Octavio Paz

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Amsterdã, 22 de outubro de 1972

Querido Octavio,

Mil obrigados por sua carta. Me permite respondê-la longamente? Não é que eu queira (não gosto de) polemizar. É que quero aproveitar o interesse que despertam meus textos e dirigir esse interesse para o que os textos verdadeiramente querem dizer. Preciso dissipar o mal-entendido que, segundo penso, fundamenta o seu interesse, ainda que eu corra o risco de, com o mal-entendido, fazer esse interesse desaparecer.

Você diz que meus textos, por serem estruturas, não são literários. Não vejo porquê. Meus textos são estruturas iguais às estruturas que um linguista descreve (não sei praticamente nada de linguística). Meus textos são estruturas postas em movimento. Começam em um ponto e terminam em outro. O que os diferencia da “outra” literatura é que não introduzo nenhuma intenção, nenhum conteúdo extrínseco (conteúdo extrínseco, mas será possível?) à própria estrutura. A estrutura não necessita, para significar algo, encher-se da minha pequena história. Sempre pequena, por não ser nada mais que minha. É seu próprio movimento o que constitui o conteúdo da estrutura. E esse movimento pode ser visto, compreendido, por qualquer leitor independentemente de qual seja sua história (personalidade, temperamento, passado, ideologia etc.), coincidente ou não com a minha. De modo que estou de acordo com “o literário é aquilo que as estruturas emitem”.

Precisamente, para que emitam, necessito pô-las a descoberto, em movimento, em contato umas com as outras. Porém, emitir o quê? Isso depende de cada leitor. Eu não quero nem posso impor um conteúdo, porque não sei o que querem dizer exatamente as palavras (e como saber se o leitor sabe?). Não estou seguro de absolutamente nada. Não, não absolutamente. O que, sim, sei com segurança é que as estruturas estão ali, que as entendo como o leitor as entende, que elas se movimentam se as toco, que, aí sim, “emitem”. Isso também o leitor pode ver. Isso é tudo o que peço ao leitor que, seguramente, tem muitas outras coisas para fazer tão respeitáveis quanto ler.  Não posso exigir que passe horas e dias lendo meu texto, observando de perto como apropriadamente escolho os adjetivos, ou com que sutileza o incidente da página 125 está antecipado na página 8, e que, levando-se em conta que sou de tal nacionalidade, pertenço a tal geração, tenho tais manias sexuais, pertenci a tal partido etecetera.

Gosto de comparar o que eu faço (e me dou conta da minha ignorância) à pintura abstrata. Gosto sobretudo de comparar à álgebra. Na outra literatura, cada palavra é um número. Mas não exatamente, por desgraça. Melhor, cada palavra funciona como um número: 1 + 2 + 3 + 4 etc. Com a desvantagem de que é impossível precisar que quantidade expressa cada palavra, ou seja, o que significa. Porém, na álgebra cada letra é qualquer número. Tudo depende de sua posição na fórmula. Tudo depende da estrutura de que faz parte. Assim, nos meus textos as palavras não contam porque significam isso ou aquilo para mim ou para alguém mais, isso porque, juntas, formam uma estrutura. Essa abstração dos conteúdos particulares é, precisamente, a melhor (não a única, porém a melhor) possibilidade que tem a mensagem literária de conter sua própria negociação. Aqui sim a mensagem é plural. Na outra literatura a mensagem é falsamente plural. O autor transmite uma mensagem e cada leitor recebe uma mensagem diferente de o que é, cada vez e em cada caso, uma mensagem. Por outro lado, as estruturas (mas insisto, postas no claro, em movimento, e em contato umas com as outras) não transmitem uma mensagem, mas qualquer mensagem. Muitas. Todas. E nenhuma a cada vez. Contêm sua própria negação.

A metáfora é o ponto de encontro, não de palavras, mas de estruturas. Sobre isso há ainda muito a dizer. Porém agora já está mais claro o que significa o texto que você pensa em publicar. Porque tem uma mensagem (confusa, não plural), não é literário. É um texto teórico. Se você publicar esse e não os outros, é como se eu tivesse mandado um romance acompanhado de um prefácio e você decidisse publicar apenas o prefácio.

Estou em Amsterdã porque aqui me parece mais fácil realizar as consequências práticas do que disse acima. Por exemplo, agora posso (qualquer um pode) trabalhar em várias línguas por vez. Nem sequer é necessário dominar a língua. Além disso, os livros se tornaram menores, mais baratos, mais fáceis de ler e mais fáceis de fabricar. Um escritor pode agora fabricar os próprios livros. Basta ter um mimeógrafo (os escritores ricos podem comprar uma offset e, se são generosos, emprestá-la para os escritores pobres). Ainda, os livros se convertem em um entre muitos meios de publicação. Estão aí, por exemplo, as galerias de pintura, onde é possível pendurar uma sequência de textos, onde, como que por casualidade, os pintores já não têm mais nada o que pendurar.

Entretanto estudo, em casa e desordenadamente, matemáticas. Também leio livros de divulgação científica, ou seja, de um nível elementar, porque minha ignorância não dá para mais. Sempre tive certeza de que as matemáticas eram chatas e a ciência prosaica. Agora, de maneira diferente, entender por que a água ferve me parece mais fascinante do que as confusas confissões de Fulanito de Tal. E as matemáticas puras excitam minha imaginação mais do que as invenções verbais de nossos mais visionários literatos.

Porém temo que tudo isso soe confissão confusa.

Receba minhas saudações e meu afeto. E minhas desculpas por uma carta tão longa.

Ulises Carrión

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3 de abril de 1973 (os textos que Carrión enviou para Paz já estavam publicados na Plural 16)

Querido Ulises:

Que gostoso conversar com você! Seus raciocínios me deslumbram inclusive quando não me convencem. Agora cabe a mim dar minhas razões. Aí vão…

Literário ou não, todo texto possui uma estrutura. Digo melhor, várias: fonológica, sintática, retórica etc. Sem elas não há texto, mas o texto não pode se reduzir à sua estrutura. Cada texto é distinto, enquanto as estruturas são as mesmas: não mudam ou mudam pouquíssimo. Um número limitado de estruturas produz um número quase infinito de textos que, por sua vez, produz outro infinito de sentidos. Na esfera da poesia e da literatura a distinção entre texto e estrutura se faz mais nítida e radical. Todas as formas e gêneros literários – relatos, romances, sonetos – possuem estruturas semelhantes, porém cada relato, novela e soneto é uma obra: um exemplar único. Todos os hendecassílabos têm onze sílabas e um determinado número de acentuações tônicas e, não obstante, um hendecassílabo de Góngora não é um hendecassílabo de Lugones. Ainda que a Odisseia e o Ulisses de Joyce sejam (ou não possam ser) similares, o que nos interessa é aquilo que distingue a Odisseia do Ulisses. As estruturas são comuns e repetidas, os textos poéticos são únicos e irrepetíveis. Você vai me dizer que a maioria dos textos são repetíveis e comuns. Sim, os romances ruins e os poemas medíocres – tudo aquilo que é produto de uma escola, uma maneira ou um estilo. Tudo aquilo que é receita e que tende a se confundir com a estrutura.

Por que me interesso tanto pelo que você faz? Pelas próprias (des)construções poéticas de seus textos teóricos? Quiçá por sua elegância, no sentido matemático da palavra. Em seguida, pelo seu humor seco. (Nós mexicanos temos nos tornado um povo mal-humorado e nossos únicos alívios são o desbunde, a piada política e a fofoca de péssimo tom. Foi nisso que deu um país que era, segundo Breton, “a terra de eleição do humor negro”.) Por fim, porque seus textos são realmente literatura. Você converte o que chama “estruturas em movimento” em textos ou, melhor, antitextos poéticos. Textos únicos e destinados a uma empresa única: a destruição do texto e da literatura.

Não sou o único, posso dizer, que se interessa por sua tentativa. Acabo de receber uma carta de Severo Sarduy e em um de seus parágrafos ele me disse: “Por aqui se debate, e sou quem mais toma partido – pois me interessou muitíssimo –, a produção de Ulises Carrión” (Plural 16). O que você disse sobre a estrutura-descrição e da metáfora-suceder me parece digno do “Caderno Azul”. Gostei muito também da esquematização paródica que acomete os romances populares. “Para onde vai a literatura jovem? À sua perdição – espero.” Você se propõe a fazer outra literatura. Todos querem fazer o mesmo porém você introduz uma variante: sua literatura outra não é sua e sim dos outros. Reconheço nessa declaração a tentação que inspirou as sucessivas vanguardas de nosso tempo, de Mallarmé para cá: escrever um texto que seja todos os textos ou escrever um texto que seja a destruição de todos os textos. ­Ambos são a mesma paixão pelo absoluto.

Cordialmente,

Octavio

* Plural, janeiro de 1973. Ulises Carrión publicou “Textos y poemas”. Ver Plural 16 >>> Ver também Sofía Carrillo, “Estructura y psicosis en ‘Textos y poemas’ de Ulises Carrión” >>>

** Octavio Paz, Claude Lévi-Strauss ou o novo Festim de Esopo, São Paulo, Perspectiva, 1993.

Original >>> /tradução de thadeu c santos /revisão de vinicius melo

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