JOSÉ SARAMAGO chiapas, nome de dor e esperança

sebastiaobanner

detalhe de fotografia de Sebastião Salgado, 1998

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Em 1721, com uma ingenuidade fingida que não escondia a acidez do sarcasmo, Charles-Louis de Secondat perguntou-nos: “Persas? Mas, como é possível ser-se persa?” Vai já para trezentos anos que o barão de Montesquieu escreveu as suas famosas “Lettres Persanes”, e até agora ainda não conseguimos encontrar a maneira de elaborar uma resposta inteligente à mais essencial das questões que se contém no roteiro histórico das relações entre os seres humanos. De fato, continuamos a não entender como foi possível a alguém ter sido “persa” e, ainda por cima, como se já não fosse desproporcionada tal extravagância, persistir em sê-lo hoje, quando o espetáculo que o mundo oferece nos pretende convencer de que só é desejável e proveitoso ser-se aquilo que, em termos muito gerais e artificiosamente conciliadores, é costume designar por “ocidental” (ocidental de mentalidade, de modas, de gostos, de hábitos, de interesses, de manias, de ideias…), ou, no caso demasiado frequente de não se ter logrado chegar a tão sublimes alturas, ser-se ao menos bastardamente “ocidentalizado”, quer esse resultado tenha sido alcançado pela força da persuasão, quer, de modo mais radical, se outro remédio não houve, pela persuasão da força.

Ser “persa” é ser o estranho, é ser o diferente, é, numa palavra, ser outro. A simples existência do “persa” tem bastado para incomodar, confundir, desorganizar, perturbar a mecânica das instituições, o “persa” pode ir mesmo ao extremo inadmissível de desassossegar aquilo de que todos os governos do mundo são mais ciosos, a soberana tranquilidade do seu poder. Foram e são “persas” os índios do Brasil (onde os sem-terra representam agora uma outra modalidade de “persas”), foram mas já quase deixaram de ser “persas” os índios dos Estados Unidos, foram “persas”, no seu tempo, os incas, os maias, os aztecas, foram e são “persas” os seus descendentes, lá onde quer que tenham vivido e ainda vivam. Há “persas” na Guatemala, na Bolívia, na Colômbia, no Peru. Também sobreabundam os “persas” na dolorida terra mexicana, que foi de onde a câmara interrogadora e rigorosa de Sebastião Salgado trouxe o estremecimento das comovedoras imagens que aqui frontalmente nos interpelam. Que dizem: “Como é possível que vos fale, a vós, ‘ocidentais’ e ‘ocidentalizados’ do Norte e do Sul, do Este e do Oeste, tão cultos, tão civilizados, tão perfeitos, o pouco de inteligência e de sensibilidade suficiente para compreender-nos, a nós, aos ‘persas’ de Chiapas?”

De isso, realmente, se trataria: de compreender. Compreender a expressão destes olhares, a gravidade destes rostos, o simples modo de estar juntos, de sentir e de pensar juntos, de chorar em comum as mesmas lágrimas, de sorrir o mesmo sorriso, compreender as mãos do único sobrevivente de uma matança colocadas como asas protetoras sobre as cabeças das filhas, compreender este rio infindável de vivos e de mortos, este sangue perdido, esta esperança ganha, este silêncio de quem leva séculos protestando por respeito e justiça, esta ira represada de quem finalmente se cansou de esperar. Quando, há seis anos, as alterações introduzidas na Constituição mexicana, em obediência à “revolução econômica” neoliberal, orientada do exterior e impiedosamente aplicada pelo governo, vieram pôr termo à distribuição agrária e reduzir a nada a possibilidade de os camponeses sem terra disporem de uma parcela de terreno para cultivar, os indígenas acreditaram que poderiam defender os seus direitos históricos (ou simplesmente consuetudinários, no caso de se pretender que as comunidades índias não ocupam nenhum lugar na História do México…), organizando-se em sociedades civis que se caracterizavam e assim se continuam a caracterizar, singularmente, por repudiar qualquer tipo de violência, começando pela que poderia ser a sua própria. Essas sociedades tiveram, desde o princípio, o apoio da Igreja Católica, mas essa proteção de pouco lhes serviu, os seus dirigentes e representantes foram sucessivamente metidos na cadeia, cresceu a perseguição sistemática, implacável, brutal por parte dos poderes do Estado e dos grandes latifundiários, mancomunados à sombra dos interesses e privilégios de uns e de outros, prosseguiram as ações violentas de expulsão das terras ancestrais, e as montanhas e a selva tiveram de ser, muitas vezes, o derradeiro refúgio dos deslocados. Aí, entre as névoas densas dos cimos e dos vales, iria germinar a semente da rebelião.

Os índios de Chiapas não são os únicos humilhados e ofendidos deste mundo: em todas as partes e épocas, com independência de raça, de cor, de costumes, de cultura, de crença religiosa, o ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhantes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos divisões novas, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação e a ofensa. Chiapas foi, nestes últimos anos, o lugar onde os mais desprezados, os mais humilhados e os mais ofendidos do México foram capazes de recuperar intactas uma dignidade e uma honra nunca definitivamente perdidas, o lugar onde a pesada lousa de uma opressão que dura há séculos se despedaçou para deixar passar, na vanguarda de uma procissão interminável de assassinados, uma procissão de viventes novos e diferentes, estes homens, estas mulheres e estas crianças de agora que nada mais estão reclamando que o respeito pelos seus direitos, não apenas como seres humanos desta humanidade, mas também como índios que querem continuar a ser. Levantaram-se com algumas armas na mão, mas levantaram-se sobretudo com a força moral que unicamente a mesma honra e a mesma dignidade são capazes de fazer nascer e alimentar no espírito, ainda quando o corpo esteja padecendo da fome e das misérias de sempre. Do outro lado dos Altos de Chiapas não está apenas o governo do México, está o mundo inteiro. Por muito que se tenha pretendido reduzir a questão de Chiapas a um mero conflito local, cuja solução só deverá ser encontrada no quadro estrito da aplicação das leis nacionais (hipocritamente moldáveis e ajustáveis, como uma vez mais se viu, às estratégias e às táticas do poder econômico e do poder político, seu serventuário), o que se está jogando nas montanhas chiapanecas e na Selva Lacandona ultrapassa as fronteiras mexicanas para vir atingir o coração daquela parte da humanidade que não renunciou nem renunciará nunca ao sonho e à esperança, ao simples imperativo de uma justiça igual para todos. Como escreveu um dia essa figura, por muitos motivos excepcional e exemplar, que conhecemos sob o nome de subcomandante insurgente Marcos, “um mundo onde caibam muitos mundos, um mundo que seja uno e diverso”, um mundo, permito-me eu acrescentar, que, para todo o sempre, declarasse intocável o direito de cada qual a ser “persa” pelo tempo que quiser e não obedecendo a nada mais que às suas próprias razões…

Os maciços montanhosos de Chiapas são, sem dúvida, uma das mais assombrosas paisagens que os meus olhos alguma vez viram, mas são também um lugar onde a violência e o crime protegido campeiam.

Milhares de indígenas, expulsos das suas casas e das suas terras pelo “imperdoável delito” de serem simpatizantes silenciosos ou confessos da Frente Zapatista de Libertação Nacional, estão amontoados em acampamentos de barracas improvisadas onde a comida falta, onde a pouca água de que dispõem está quase sempre contaminada, onde doenças como a tuberculose, o cólera, o sarampo, o tétano, a pneumonia, o tifo, o paludismo vão dizimando adultos e crianças, tudo isto perante a indiferença das autoridades e da medicina oficial. Ao redor de 60 mil soldados, nada mais nada menos que um terço dos efetivos permanentes do Exército mexicano, ocupam atualmente o Estado de Chiapas, a pretexto de defender e assegurar a ordem pública. Ora, a realidade dos fatos desmente a justificação. Se o Exército mexicano protege uma parte dos indígenas, e não só os protege como igualmente os arma, instrui, treina e municia, esses indígenas, no geral dependentes e subordinados ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), que vem exercendo desde há 70 anos, sem interrupção, um poder praticamente absoluto, são, mas não por qualquer coincidência extraordinária, aqueles que formam os diversos grupos paramilitares constituídos com o objetivo único de realizarem o trabalho repressivo mais sujo, isto é, agredir, violar, assassinar os seus próprios irmãos.

Acteal foi um episódio mais da terrível tragédia iniciada em 1492 com as invasões e a conquista. Ao longo de 500 anos, os indígenas de Iberoamérica (é intencionalmente que emprego esta designação para não deixar fora de julgamento os portugueses, e depois os brasileiros, seus continuadores no processo genocida, que reduziram os 3 ou 4 milhões de índios existentes no Brasil na época dos descobrimentos a pouco mais de 200 mil em 1980), esses indígenas andaram, por assim dizer, de mão em mão, da mão do soldado que os matava à mão do senhor que os explorava, tendo por meio a mão da Igreja Católica que lhes trocou uns deuses por outros, mas que afinal não conseguiu mudar-lhes o espírito. Quando depois da carnificina de Acteal começaram a ouvir-se na rádio palavras que diziam: “Vamos ganhando”, qualquer pessoa desprevenida poderia ter pensado que se tratava de uma proclamação insolente e provocatória dos assassinos. Enganava-se: essas duas palavras eram uma mensagem de ânimo, um recado de coragem que unia pelos ares, como num abraço, as comunidades indígenas. Enquanto choravam os seus mortos, outros 45 a juntar a uma lista cinco vezes secular, as comunidades, estoicamente, erguiam a cabeça, diziam uma às outras: “Vamos ganhando”, porque realmente só pode ter sido uma vitória, e grande, a maior de todas, ser capaz de sobreviver assim à humilhação e à ofensa, ao desprezo, à crueldade e à tortura. Porque esta vitória é do espírito.

Conta Eduardo Galeano, o grande escritor uruguaio, que Rafael Guillén, antes de tornar-se Marcos, veio a Chiapas e falou aos indígenas, mas eles não o entenderam. “Então meteu-se na névoa, aprendeu a escutar e foi capaz de falar.” A mesma névoa que impede ver é também a janela aberta para o mundo do outro, o mundo do índio, o mundo do “persa”… Olhemos em silêncio, aprendamos a ouvir, talvez depois, finalmente, sejamos capazes de compreender.

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JOSÉ SARAMAGO (prólogo). Nuestra arma es nuestra palabra: escritos selectos/Subcomandante Insurgente Marcos; organizadora Juana Ponce de León. Nova York: Seven Stories, 2001.

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