JULIO PLAZA o mimético, a interferência e o instante nos MM (mass media)

 

plazabanner

Na sociedade pós-industrial
A média com a mídia
É a constante

Os MM (meios de massa) na era risonha
Nos acostumaram a homologar os seus “jogos de linguagem”
E a riqueza retórica das imagens
Na pobreza de suas mensagens
Que se consubstanciam como representações
No sistema da indústria cultural
E no “fluxo indiferenciado e descodificado” do capitalismo
Que “destrói as coisas belas”

Os mercados estão atentos a toda diferença
Suscetível de uma recodificação
Que a tornará indiferente e esgotará seu sentido

O ruído transmutado em mensagem e vice-versa
Ruídos e perturbações são interferências semânticas
Que são a reserva de signos potenciais
Esperando seu turno numa sociedade
Que renova lógica e vertiginosamente o material sígnico
Uma sociedade semiorrágica
Metáforas de anarquia

Em função do espetáculo ideológico-cultural
E artístico-mercantil
Os MM ejaculam conforme o modo da moda
O-novo-como-novidade-como-novo …
“O que há de novo pinta na tela da Globo”

Na ubiquidade dos MM
Não se aspira a um contra-sentido
Mas à exacerbação ad nauseam
Da mesma natureza simulatória
E às interferências retóricas
Deglutidas no fluxo das representações massivas
Onde o homem vira suco

Se o excremento o sexo a comilança a bebedeira a risada
São práticas da semiorragia carnavalizante
Oposta ao estilo da cultura oficial medieval
A tática produtiva do humor difuso
Da alegria teleguiada dos risos programados em off
Serve a fluidez das operações de comunicação e consumo
E a identificação “entre nós” do gruparismo imaginário
Como forma de gregarismo cultural
“O que há de quente pinta na tela da gente”

Na face risonha do pós-moderno
A sociedade middle class mediúnica
Espelha-se na mesmice da tela risonha
Festa da mídia eletrônica

Este irracionalismo do racional promove o ritual
Que se apropria do desejo coletivo e individual
Enlatando as paixões pré-fabricadas
No mimetismo cultural
E na ética do útil-agradável
À menor realidade erótica
Mais formas sexualizadas no espetáculo

No funcionalismo da produção de sentido
Onde se objetiva a ordem sócio-econômica-cultural
E no utilitarismo do progressismo mercantil teleonômico do lucro
“Os fins justificam os meios”
Ocidental-mente

Tudo mais
Entra como conteúdo dos MM em instantaneidade inclusiva
Mimetiza-se e se trasveste
Na roupagem dos mídia como processo-produto-de-representação
E sobrevivência
Onde a obrigação de produzir aliena a paixão de criar

E logo o volátil
O tudo-nada da lógica dos produtos ideológicos
Da sociedade “pós-ideológica”
Que busca a identidade no jogo ilusionista da catarse

As artes artesanais também entram nessa
Como conteúdo das artes pós industriais
O que dá status “cultural” aos MM
E produz orgasmo nos artistas

Em troca
Os MM criam o célebre

Mas os MM não são unidimensionais
Repensando seus suportes
Eles nos dizem das suas múltiplas faces na sua performance:
A função referencial
Pois os MM nos religam aos produtos de forma instantânea
E insistente
De tal modo a prolongar a mirada sobre o mesmo

Eles nos falam também da exacerbação da função de contato
A procura do “ouviver”: v. está aí?
Também da meta linguagem soft
Através do fechamento dos discursos sobre si mesmos
Que se desliza para a performatividade do consumo
E sobretudo no repúdio à exigência
De representar mimeticamente o real
Pois é a vida que imita o videoclip

Também falam de suas memórias
Que como arquivo de semelhanças
E suportes de “museus imaginários”
Organizam a cultura do disponível como o sonho:
Londres Paris New York etc. etc. estão nos chips de silício
E formam a “aldeia global”

“A mudança de ilusão a ritmo acelerado dissolve
Pouco a pouco
A ilusão de mudança”


A INTERFERÊNCIA


O universo reprodutivo dos MM
Transforma nosso mundo “natural” em ambientes-mensagens
Os MM são lugar e motor de processos de hibridização
Tradução e conflito
Como colagem ambiental de suportes e signos

Assim o sentido da “arte” e “cultura”
Não procede mais na natureza
Mas dos MM e seus programas

As noções de “criação” “arte” “artista”
Resultam da herança secular
E do monopólio do único metafísico

Mas a “espontaneidade” da criação
Traduzida nos diversos MM
Sofre adaptação e transformação
Pela capacidade de absorção dos diferentes códigos
Que emigram de uns meios para outros
Quebrando a noção de “arte”
(Como objeto-informação individualizado)

Aparecem os fenômenos de complementação
Relatividade e disponibilidade
Produção e programação

A hibridização nos dá a multiplicidade
De universos paralelos e simultâneos
Que tendem a perder seus contornos e fronteiras fixas
Tornado obsoletas as fronteiras territoriais
E os partidos políticos

Hoje a arte não está mais na “arte”
Nem no “museu”
Nem no “artista”
Ela emigrou para os conglomerados sígnicos
(Incluindo-se aí o homem — que é signo —)
Os multimeios
E também o “real”
Que é linguagem
Dança de réplicas simulacros e substitutos

Os multimeios constroem multirrealidades
Conflitantes e dialéticas
Sob o signo do amálgama

É a multicomunicação que descentra a autoridade
E não tributa ao código central da escrita alfabética

O fluxo da corrente lógica da consciência
É estilhaçado
Abrindo-se a fenda pelo folhear e a mixagem

Com a ruptura da lógica linear e discursiva
Surgem a bricolagem e os intercódigos
Como prolongamento infinito das reproduções
O universo da comunicação vira mistura e amálgama

Mas a causalidade conflitiva
Entre representações de massa
É um fato
O resultado é um mosaico de eventos
Que muda a noção da história

Folhear-explorar a mistura interferente
Torna-se praxe no mundo atual
Por isso a eletrônica comanda o mundo pós-moderno

O folhear os MM com a visão descontínua
Em trajetos aleatórios
Nos leva à mistura cinética dos sinais
Que criam configurações probabilísticas
Como “ruídos coloridos” de cultura mosaica
Os instantes insólitos articulam-se
Como em Lautreamont:
“O reencontro casual do guarda-chuva
E a máquina de costura na mesa de operações”
Performance de sentido

Mas a presença dos MM
Contrai-dilata
E nos bombardeia em múltiplos espaço-tempos
Criando a ubiquidade
Que se desloca deslouca-mente ao gosto da máquina
E estilhaça o único em telepresença
Ou heteropresença
Que se opõe ao ideológico “voltar às raízes”
Dos saudosos “bons velhos tempos”

Subvertido o conjunto de nossas instalações culturais
Os multimeios esterilizam e estilizam
Os modelos culturais de outros espaço-tempos:
Reescritura da história

A cultura fixa da tradição
É animada através dos meios tecnológicos
O centro é deslocado no passado para o futuro:
Transculturação

Surge a “sociedade do espetáculo” ou “pós-industrial”
Que se dissolve entre o verdadeiro e o falso
A ficção e o real
O passado e o futuro
História e espetáculo
Virtualidades
Simulacros

Nessa
Os MM engolem em instantes
Todos os procedimentos estéticos
Das vanguardas históricas
(A própria TV é a síntese da história da pintura)
E os vomitam e performatizam em “jogos de linguagem”
No seu sistema reprodutivo
Que visa a objetivação da indústria cultural


O INSTANTE


Ao lado do reprodutivo e continuístico
Há o produtivo e criativo (o inútil)
Ou princípio do prazer
Que não homologa a utilidade dos aparelhos
Que simulam um tipo de pensamento

Na contemporaneidade pós-industrial
E a contrapelo da autoridade da tradição das artes
Dá-se lugar à investigação e à tradução

Do certo ao provável
Não se criam obras novas
E sim novas artes

Desautomatiza-se a percepção
Haja consciência!

Contra as ciladas do consumo e da vivência
O “PRODUSSUMO” e a experiência

Contra a mimética da novidade ou eterno-efêmero
A poética do NOVO ou efêmero-eterno
O instante
Com prazer

Macluham pergunta:
“Que tipos de arte poderiam servir hoje para sondar
E revelar as dimensões ocultas da eletrônica?”

Na arte pós-mídia como posto de ação e observação
Todo pensamento articulado implica num mínimo de meios:
Identificar os signos já é qualificá-los

Semear mensagens artísticas e poéticas
Em meio a mensagens publicitárias
É uma tentativa de estender a consciência
Criando um contexto também consciente
Porque inserta um anti-ambiente
Dentro de contextos anteriores

É que as ciências e tecnologias programam nossos ambientes
Na forma de “museu sem muros”
De tal modo
Que se faz necessário o concurso do artista
(Como sensibilidade viva)
Como criador de consciência dos novos meios
E contextos criados pela tecnologia
Pois a arte está deixando de ser
Um tipo essencial de objeto
Para programar um tipo especial de espaço
E isto é “tornar o planeta uma obra de arte”

Programar artes nos MM
Representa dialogar em ritmo “intervisual” e “intertextual”
Com os vários códigos da propaganda
E é nesses intervalos entre os códigos
Que se instaura uma fronteira fluida
Entre propaganda e arte
Uma margem de criação
É nesses intervalos
Que os meios adquirem a sua real dimensão
As suas qualidades

Mas as coisas não são tão simples
A inocência está excluída das linguagens e meios

A questão além de ser poética é também política
O que implica na consciência
De operações de transmutação sígnica no instante
Implicando na percepção do átimo de tempo
Entre passado e futuro: o presente
Consciência de linguagem

Assim
3 alternativas se apresentam:
A estrutural
Ou criação de novos meios interativos em redes
É o jogo com as estruturas e não com os eventos

A política: como federação de instantes
Pois ceder uma polegada do qualitativo
É ceder a totalidade do qualitativo

A poética: a informação corrigida
No sentido da poesia

Mas é a própria tecnologia
Que dá conta da primeira alternativa
Possibilitando a criação de novos meios
Mediante a associação de vários deles como produto
Que sintetiza qualidades nunca antes existentes
Isto pode ser visto nas redes de comunicação
Que utilizam cablagem telefônica
Criando meios interativos que dialogam com o usuário
E rompem os fluxos unidirecionais dos MM
E o lado democrático dos meios
Que em rede network ou TV a cabo ou videotexto (entre outros)
Tende a implodir a sociedade de massas
E a comunicação centralizada nos seus aparelhos
De transmissão hertziana broadcasting de informações
Lado autoritário da sociedade industrial
Prenunciando no dizer de W. Flusser
A sociedade fascista do porvir
Enquanto as redes network
Anunciam a sociedade democrática do futuro

Assim
A organização da espontaneidade
Correrá a cargo da própria espontaneidade
Coordenação vs. hierarquia

A política:
Revisitando as simetrias benjaminianas
“Ler o que nunca foi escrito
É a leitura mais antiga…”
“Leitura das vísceras” dos MM
Assim como a leitura das constelações dos processos estelares
Que nos revelam as “semelhanças imateriais” nos seus suportes

O semelhante dá-se na transparência dos MM
Em apenas um instante
Com a “velocidade relâmpago”
O único possível causador de ruptura
Como o demônio da analogia que instaura a ironia
Na teleonomia dos MM

Deter o tempo
Federar os instantes
Pois tudo se constrói no presente

Interromper o fluxo
(Ou criar novos fluxos-piratas)
Parar o relógio
“Tal como se vislumbra num instante de perigo”

O sistema não está construído
Pelo “tempo homogêneo e vazio”

Mas está saturado de presentes
De tempo-pleno
tempo-agora

Na comuna de Paris (e no primeiro dia de luta)
Disparou-se simultaneamente sobre os relógios das torres:
“… pour arrêter le jour” [“… para parar o dia”]

Também na FEBEM (revoltas de 1986)

Elvis Presley disparou contra sua TV
Talvez por não suportar o fluir do tempo

E o relógio parado de Hiroshima denuncia
O assassinato em massa
Num dia e hora de 1945

Os principais suportes logísticos
De encantamento da comunicação
Não enfrentam esta parada:
DETER o movimento progressivo centrífugo
Da comunicação simbólica
Para substituí-Io pelo movimento centrípeto
Princípio do prazer
O inútil
A “contra-comunicação”
O registro do tempo-pleno

Cabe ao sujeito histórico
Resgatar esses instantes plenos de similaridade
Em configuração com os outros
Em federação de instantes
(Pois cada instante desmorona
Em restos de passado e futuro)

É no tempo da duração do fluxo
Que se arraigam os momentos virtuais
Os possíveis
Instantes poéticos e políticos
Que podem interromper o fluxo da comunicação
A maneira zen
(“Ou caminho que não leva a lugar nenhum”)
E que configuram a nossa sensibilidade
Entre o dito e o entendido
Entre o dizível e o dizer

Assim:
O semelhante
O jogo lúdico com as regras
(A busca do prazer é a melhor garantia do lúdico)
O caráter espontâneo dos meios
(Só a criatividade é espontaneamente rica)

Como contemporaneidade
Entre pensamento-ação acaso e imprevisibilidade
A sobriedade dos meios
Vazio simplicidade ausência
A naturalidade a serenidade o essencial
O inacabado o imperfeito a realização prática
A ressonância e sincronia dos tempos
A atitude de interrogação e surpresa
Diante da coisa tecnológica
Como algo enigmático remoto efêmero misterioso
Que configura o nosso imaginário

É por isso que as formas tecnológicas
Quando obsoletas no tempo e função
Tornam-se também arte

O que interessa são os meios e não os fins

Política
Poética
Oriental-mente

*

/// transcrito daqui

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