CAROLINA LEAL os arautos digitais

banercarol1

O tempo ácido
se espalha, corrosivo,
entre as ruas sem saída
dessa cidade em ruínas

Grãos de poeira da memória
soprados pelo último suspiro
soldam os poros
do cimento fresco

Não há respiro de espírito
nos blocos de concreto
por onde se pisa
sem deixar pegadas

*

///2/entres

eram muitas ideias
evocadas, planejadas, ensaiadas
quase aplaudidas
mas na hora de falar
eram muitos discursos
debatidos, decorados, afirmados
e na hora de agir
eram muitas ações
práticas, ágeis, ritmadas
e na hora dos valores:

era a fome das máquinas
era a fome das máquinas
era a fome das máquinas

*

*

Na pracinha dos arautos digitais
o que fez o que faz ela da vida
transfigurando imagens mentais
carimbando palavras em cartolina
no papel fora de órbita
verso artesanal da poesia
o que fez o que faz ela da vida
no mercado multitransmídia
com esse olhar fora de moda

em um livrinho, para que
serve,
mas até que
esse livrinho serve,
ora bolas,
para forrar o fundo
da minha gaiola.

*

Você construiu ideias
e deu o salto mortal
entre o desejo e o dia

os fios se romperam

seus pés balançam
mais uma vez
no terreno pantanoso
de maré cheia baixa
ondas na sequência
sem caldos ou jacarés
mas envolventes balanços
por todos os lados
sem que se possa sentir
os pés no chão

insegura os fluidos dos ideais
tentando reconstruir
as partes do corpo apodrecidas
pelos ambientes doentes
do capital

num momento de distração
insiste nos resquícios

desloca-se permanentemente
agora, para qualquer lugar
sempre em busca dessa terra
que quando chega se desfaz
porque nessa divisão de trabalho
a liberdade construída pela moeda
não tem tempo de exercer quem é
é falácia dos faladores que curtem o selfie
nas praias emolduradas pelos montes

parece uma esponja
esfregando-se ao negro tapume
dessa cidade rendida aos
cenários assépticos
que fedem demais

*

é proibido dizer
é proibido ser
o que não seja
essa terra em que

as tradições nada mais são
além de vacas leiteiras

é proibido ecoar os cantos
em que um dia se falou de amor
do amor visto ao longe
desse chão
onde se vai
olhando de lado
falando baixinho
com a boca envolta em terços
com a loucura amarrada no tronco
depois de tantas alforrias
ainda arrastar correntes
pelas minas destruídas

*

///6/às escondidas

os pés habituados à aspereza da estrada
já não sucumbiam a qualquer espinho

é claro que você preferia o amargo
a cachaça e a luz vermelha da lua nova
tinha espaço para um poema pela manhã
e até quando a tarde tinha cheiro de terra molhada
não deixávamos as águas varrerem as cascas
de frutas cítricas que largávamos pelo chão
para manter o gosto amargo no canto da boca
ou para que o rio não corresse demais

às vezes vinha a brisa carregando o querer
a lua se enchia daquele encanto de poeta
na boca uma onda lavava o amargo
depois, onda que era, levava você embora
eu torcia que rodasse moinho de volta
às vezes não passava nada.

*

A cada
pedra
sob os pés
esse céu
se desfaz
na vontade
conto as horas
que a estrada
não demore
em trazer
esse que
faz do chão
balanço
de maré

*
Eles ainda se lembravam, ainda a encontravam nas rotinas dos bares e restaurantes, nas peças, nos livros velhos, nas músicas e trabalhos. Eles ainda mandavam mensagens, perguntavam pelo seu retorno, quando era mesmo aquela data em que você disse que tinha a passagem. E a passagem se desfazia em cada espaço entre o chão e o céu, em cada circundar dos vales. A passagem se desfazia em novos sabores, nas ruas que se perdiam, no roncar dos motores. A passagem se desfazia nos lugares que se tornavam um lugar que não fosse o da passagem. A passagem se fazia em outras passagens. A passagem se desmanchava em muitos orgasmos. A passagem. Circulava amores de partida. A passagem gerava, desfazia saudades e ia. A passagem se refletia no brilho dos becos desconhecidos. Na paisagem de cenas e riscos. Jogos de sorte, jogos de tédio. De medo e solidão. A passagem se desfazia no cansaço. Em rostos e não estares. A passagem transformava, eles não entendiam. Nunca voltava porque passava e se fazia em vida. Diluía o meu em mundo. E o que era o eu já era tudo.
*
/
*
///CAROLINA LEAL (Niterói, 1987) é uma poeta carioca. Seu primeiro livro: Transversia, será lançado em breve pela kza1.
.
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vídeo: systaime aka michel b
*

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