LINTON KWESI JOHNSON a cultura do grave [lado a]

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///rua 66 (street 66)
[trad. joão borogan]

*

os cantos escuros, e o sol negro rodando macio 6 da tarde
e as luzes das brasas afinando a nitidez da noite
o som era a música rescaída de um passo ficado
e atrás dos olhos mística verde, vermelha, verde, vermelha
só, de qualquer um
a sua cena

ninguém dança, só o salto tremido balança
daquela brasa afiada através da sala certeira
dando contornos ao som, quebrando a onda preta
bate e volta a sua firmeza, devolvendo as estrelas vermelhas

porque quando a música me baque, um oco escuro no peito,
eu sei, é, ser e rolar o que tá de dentro da pedra
e lançando pra fora, um dia, deve sair um ritmo mais verde
com a alma mais pesada do que qualquer outra brisa pura

o seu passo é a vibração violenta
pedrada com o ritmo verde
a secura e o seco raizando pra fora

i roy falava forte na caixa
weston fechou um skank e cada um ria, na brisa
eu & a rua 66, o homem triste disse, se um policia
cola aqui, vai toma um apavoro, tapa e tiro na cara

a batida da hora, e a cena firme, até que
pah pah pah, alguém bateu na porta
“quem é?”, weston falou, certo
“abre, é a polícia, vamo, abre logo”

“quem você tá procurando?”
“número 66, vai logo, abre essa porra”
weston falou, alto
“é aqui. entra aí e vem tomar um pau”

///a inglaterra é uma rampeira (inglan is a bitch)
[trad. thadeu c santos]

*

assim que cheguei na cidade de londres
comecei no trabalho clandestino
mas quando você é trabalhador clandestino
não sabe onde está nem por onde sair

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira
e não tem como correr

consegui um bico num grande hotel
depois de um tempo eu até que ia bem
eles me botaram pra lavar os pratos
enquanto lavava pilhas, não sabia que horas sair

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira
e não tem como se esconder

quando eles soltam o mísero pagamento
já roubavam boa parte no desconto
você tem que suar pr’aquilo render
e quando você deita não consegue dormir

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira, de verdade
não minto quando conto, é verdade

se estava frio, trabalhava tirando neve sem cansar
era forte tipo uma mula mas muito burro também
depois de um tempo parei de fazer cerão
depois de um tempo eu pus a pá no chão

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira
você tem que se virar como dá

daí eu trabalhava de dia e trabalhava de noite
pegava trabalho limpo e trabalho sujo
eles diziam que gente preta era preguiçosa demais
mas se você visse o quanto eu trabalhava diria que enlouqueci

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira
tem que ter força pra não sucumbir

eles têm uma pequena fábrica em brackly
o dia inteiro eles mandam empacotar
nos últimos quinze anos eles tiveram o meu trabalho
agora depois de quinze anos me sinto humilhado

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira
e não tem como correr

eu sei que eles têm trabalho, trabalho a pampa
ainda assim, eles me tacham como desempregado
agora com 55 anos, estou ficando velho
ainda assim, estou na lista de procura por trabalho

a inglaterra é uma rampeira
e não tem pra onde fugir
a inglaterra é uma rampeira, de verdade
e aí vamos segurar essa barra até quando?

///os dois lados do silêncio (two sides of silence)
[trad. joão borogan]

*

para nós
que somos
de nascimentos
necessários
de terras
duras
de trabalhos
ingratos
silêncio não tem sentido

nunca há um sentimento
de tranquilidade
ou mera quietude
nunca um momento
de calada calma
de dentro ou de fora
dos nossos olhos irritados

como pode a sangria
de sons ser sossegada
se não há vazio onde
ruídos são apanhados
e emudecidos
antes de fugir
de nossos ouvidos

como enfim
pode haver silêncio

quando os corações esguelam
um enfarto esganiçado
de cara com batidas de pele
estirada e passada e africana
quando lágrimas sanguíneas
de ferro sólido nossos olhos
caem no concreto queimado

dentro dos ouvidos
entrevam muitos soluços
da miséria
de dentro dos corpos
a hemorragia interna
de vulcões esfomeados
dentro das cabeças
as cordas e os nós
da rebelião

como pode haver calma
se o trovão ainda está por chegar?

esse silêncio sem fim
alto, murado e inapelável
não dando ouvidos
para o mais delicado ruído
espera as bombas
que cada um estoura
para quebrar esse laço
para traçar esse passo
para a gastura de criar
montes de macia obediência
onde sons pedestres
podem relançar
e deslizar seus ecos
como um pássaro
num ritmo calmo
até um curado
puro, espaço de silêncio

///a cultura do grave (bass culture)
[trad. thadeu c santos] [parte 1]

*

música de sangue, negro de pé
dor na raiz, coração no movimento

tudo na tensão
na bolha e no estouro
e no salto e na falta de peso do corpo

é assim que o coração bate
na pulsação do sangue
isso é o grave fervendo
bate forte forte
faz força contra o muro
energia do sangue do negro

e é o todo que se forma
sentimento que se soma
tal um modelo desagradável
tal uma justiça injusta
tornando a pureza parte da loucura

aqui é quente
quente feito todo fogo
vivendo no calor em meio ao vulcão
essa é a cultura que o povo de dread firma

os espíritos estão na terra em contato mágico
poder latente
na forma de uma loucura reinventada
como é a violência que se escancara
avança a outra escravidão
olha lá! a crueldade mostra a cara

///LINTON KWESI JOHNSON é um dubpoeta anglo-jamaicano. Bass Culture, disco que reúne os poemas aqui em parte traduzidos foi gravado em 1980, em Londres.  Linton estará no Rio de Janeiro em março para se apresentar na edição 2015 do festival Back2Black.

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