FAUSTO FAWCETT pororoca rave

I

Apartamentinho no Sudeste. Rio de Janeiro.

Um jovem casal pertencente a uma linhagem de sonoplastas, DJs, pesquisadores sonoros. Sonoplastas dão uma festinha de despedida. Eles vão pra Amazônia participar de uma festança conhecida como Pororoca Rave, a celebração do encontro das águas do Atlântico com as águas do Amazonas. Apartamentinho no Sudeste. Rio de Janeiro. Um casal pertencente a uma linhagem de DJs, sonoplastas, pesquisadores sonoros dão uma festinha de despedida. Eles ganham dinheiro comandando pistas de boate, eles ganham dinheiro em bienais e exposições. Recebem muita grana federal animando praças públicas pelo Brasil afora. Eles se intitulam Duo Coletivo Fugitivo Sound.

Como outras turmas de DJs que se misturam com músicos, que se misturam com artistas plásticos, que se misturam, se juntam às rapaziadas criativas na manipulação das parafernálias computacionais, dos instrumentos de tecladaria digital. Misturam-se com redatores de programas televisivos e roteiristas cinematográficos, assim como poetas de falação repentista ou teatral de eloquência alucinada, verve inusitada. Herdeiros de companhias teatrais ou circences, eles usam a palavra “coletivo” para designar essa miniusina de criação que, graças a recursos tecnológicos da digitalização mundial, das máquinas portáteis de programação musical, permitem a elaboração de espetáculos, publicações, filmes e etcéteras de mídia interligada. “Coletivo” é o novo apelido para companhia artística. Duo Coletivo Fugitivo Sound é como eles se intitulam. Festinha no Sudeste. Apartamentinho no Rio de Janeiro. Em meio ao burburinho do convívio dançante, um alguém bêbado chega e pergunta pro casal: “Por que Fugitivo Sound? O que significa som fugitivo?” E o casal responde numa de paciência piscante, quer dizer, com todas aquelas luzes imitando discoteca de boate/inferninho. Piscando em cima da resposta que o casal dá para o alcoólico. E o casal responde perguntando “Você já ouviu falar no Big Bang? A explosão que deu início ao Universo? Pois bem, os astrônomos e astrofísicos, os estudiosos observadores das galáxias e da fauna cósmica que habita a teoria da relatividade geral, bem, essa turma consegue calcular as durações desse nosso universo graças ao que eles chamam de radiação de fundo do Big Bang, ou seja, um ponto de luz que demarca a expansão, o afastamento das galáxias em velocidade e que começou na lendária explosão inicial que deu origem a tudo. Nós, pesquisadores de sonoridades, sempre sentimos certa inveja do pessoal que lida com luminosidades e fótons e ondas de luz e gostaríamos também de perscrutar o universo atrás de uma sonoridade primordial, o OM tão alardeado por místicos. Só que, como você sabe, o som não se propaga no espaço, daí que ficamos até pouco tempo atrás nos sentindo inferiores a astrônomos e astrofísicos que tinham um eco luminoso dos primórdios guiando suas pesquisas. Só que recentemente descobriram que num átimo da explosão inicial havia uma vibração. E se tem vibração, tem som. Voilá. Radiação de fundo sonoro do Big Bang. Vibração presente e oculta nos objetos, nas superfícies, nos organismos, nos corpos animados, nos inanimados e por aí vai. Chegar até essa radiação noise, barulho de fundo primordial escondido nas superfícies é uma das nossas missões, meu caro convidado. Captar com minúsculas parafernálias todas as variações e modulações desse eco. Por isso estamos indo pra Amazônia. Selvas e megalópoles são primas entre si no quesito concentração de gente, objetos, organismos, corpos, fauna humana e fauna não humana, animados e inanimados. Bioma e Urbioma se equivalem no excesso e por isso nós adentraremos a Amazônia como se ela fosse uma aparelhagem, um sistema de sons que esconde outras manifestações sonoras”. O convidado bebum ficou satisfeito e fascinado com as respostas em meio à piscação e ao som dançante que tinha teor paraense, amazônico, venezuelano. Folclore do pancadão selvagem num apartamentinho no Rio de Janeiro. Apartamentinho no Sudeste. Sucede que não é só por razões de poética sonoplasta que eles estão indo pra Amazônia. Nem pela diversão da Pororoca Rave, da festa comemorativa do encontro das águas do Atlântico com as águas do Amazonas. Não é apenas por causa da aventura sonoplasta que eles são Fugitivo Sound. Eles também são hackers procurados porque gostam de se embrenhar em arquivos policiais secretos atrás de depoimentos de criminosos pra colocar nas suas mixagens dançantes ou nas instalações em bienais, eventos de artes plásticas. O casal tem uma fissura mórbida por criminosos. Serial killers com vocação mística são os seus preferidos. Por causa desse interesse criminoso, eles estão sendo perseguidos, pois vasculharam e roubaram depoimentos de assassinos que incriminavam gente graúda da polícia federal, das instâncias governamentais, das instâncias presidenciais sem contar as diplomáticas. Gente graúda metida em assassinatos calculados, em eliminações de deletagem de adversários políticos. Autoridades metidas em tráfico de gente pra outros países. Gente que atrapalhava certos negócios de vulto. Sem falar de lobotomias e cirurgias que afetam o cérebro provocando mudança brusca de temperamento. Festinha num apartamento no Sudeste. Por isso esse jovem casal pertencente a uma estirpe de sonoplastas e pesquisadores de sonoridades está indo pra Amazônia. Fugir do país via Pororoca Rave. Por isso estão dando uma festinha para seus amigos e cúmplices. Lá fora a lua cheia, muito cheia, murmura o quê? Porque o mote do trabalho desses garotos é descobrir a radiação de fundo do Big Bang contido nas superfícies, nos organismos, nos corpos e principalmente no espectro eletromagnético cheio de sons e sinais a postos para se transformarem em música estranha e sedutora. Vasculhar pulsares, auroras boreais, supernovas, quasares, buracos negros, movimentações banais dos corpos por aí. Qual o som, qual o som dos primórdios, qual o som do átomo, qual o som do quark, qual o som do fóton, qual o som, qual o som do elétron, do nêutron, qual o som oculto nas paragens cósmicas? Não se propaga, mas está presente no espectro eletromagnético desde sempre. Captar para transformar em paisagem sonora. Um casal pertencente a uma linhagem de sonoplastas, DJs, pesquisadores de sonoridades, estudiosos da música como paisagem, como geradora de ambientação somática, herdeiros de uma tradição inventora de aparelhagens bizarras, traquitanas e maquinárias musicais esdrúxulas. Qual o som do átomo, qual o som ritmado do cílio da menina em constante batimento, qual o som da TV jogada, abandonada, plugada aparentemente silenciosa a uma impressora com bateria de longa duração em cima de um carrossel enguiçado? Qual o som da estátua de praça arranhada por garras de pombos? Qual o som do Big Bang? Incorporado a melodias, a grooves, a ritmos, a riffs, a solos de instrumentos, a harmonias, sinais e sons do espectro universal. É o que eles querem domar ou digitalizar, captar pra ver. Duo Coletivo Fugitivo Sound.

II

Bioma e Urbioma se equivalem no excesso e por isso nós adentraremos a Amazônia como se ela fosse uma aparelhagem

O casal pega um jatinho rumo à Amazônia, rumo à fronteira Mato Grosso-Amazonas. Sempre equipados com suas quinquilharias de nanocaptação como se estivessem num reality show, pegando tudo que as pessoas falam. Só que vai muito além disso. Eles vão captando as vibrações, as modulações da radiação de fundo do Big Bang. Sinais e ruídos ocultos nos corpos, nas manifestações meteorológicas, nas movimentações de tudo. Duo Coletivo Fugitivo Sound.

A lua cheia da véspera foi encoberta por nuvens pesadas durante a madrugada e agora, em plena tarde, aquele que, biblicamente, no Antigo Testamento, era chamado de firmamento apresenta-se chumboso, nuvens cheias de eletricidade violenta, e o casal, junto com outros ocupantes do jatinho, sente que não é apenas uma conjunção de nuvens cumulativamente tempestuosas e sim um fenômeno nunca antes visto na história do céu desse país . Algo que só esse playboy meteorológico – o aquecimento global – poderia produzir. Uma gigantesca nuvem chuvosa em movimentação acelerada como se fosse uma multidão de algodões imundos tranformada em fera voadora cheia de voltagem enfurecida. Relâmpagos improvisando um descomunal estroboscópio anunciando o cenário de boate inundadada e sacudida por ventanias em que se transformaria a paisagem do Sudeste e do Centro-Oeste. Playboy meteorológico aprontando das suas, criando um firmamento desabante em forma de chuva grossa sem limites pluviométricos. O jatinho deu meia-volta quase como num cavalo de pau de desenho animado e com a tempestade atrás derrubando outros aviões.  A chuva caindo em chicotadas quilométricas. O piloto consegue com muita competência um belo pouso de emergência na fronteira Rio-São Paulo-Minas Gerais. Arriscadíssimo pouso, mas nada aconteceu, apenas alguns arranhões e pressão alta nalguns passageiros. Eram dez contando com a tripulação. Ao sair do jatinho estacionado meio torto numa clareira – que de clareira já não tinha nada devido à escuridão da tormenta às quatro da tarde –, ao sair da aeronave, mesmo naquela situação assustadora, o Duo não parava de captar os sons da radiação de fundo do Big Bang na tempestade. Precipitação meteorológica agitando aparelhagens minúsculas. O casal viajava na direção do coração das trevas do inferno verde do submundo amazônico, mas acabou caindo no coração das trevas do colapso da infraestrutura nacional. A tempestade provocou apagão de energia, apagão habitacional com desabamentos e inundações, apagão de gás, apagão de transportes, apagão até na defesa civil descobrindo suas impossibilidades técnicas pra promover salvamentos. Nunca na história do céu deste país aconteceu uma tempestade tão bíblica como essa. Três dias de Sudeste e Centro-Oeste escurecidos como num quadro do pintor inglês Turner. Dilúvio retumbante transformando vastos territórios numa ruína de boate com um estroboscópio de relâmpagos enguiçados numa piscação eterna. Ruínas de boate inundada. Raios cortando edifícios amanteigados pelas infiltrações chuvosas, gente desesperada no inteiror e nas capitais: Belo Horizonte, São Paulo, Rio, Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Vitória. Tempestade estacionada sobre essa área por causa de uma muralha de contracorrente atmosférica. Definitivamente encurralado, o fenômeno faz o mesmo com  a população, desabando e isolando essa parte do país. Apagão de energia, apagão habitacional, apagão de água tratada. Como os dois chegarão à Amazônia, fugitivos que são? Sem problemas. Eles têm contato com uma instituição que mudou a ajuda humanitária no planeta. Noé Sem Fronteiras é seu nome. Gigantescas arcas com pares de profissionais de várias áreas, envolvidos em convergências de pesquisas a fim de gerar artefatos, gadgets e funcionais quinquilharias que permitem a qualquer flagelado passar quase que incólume por tragédias causadas por tsunamis, chuvas torrenciais, alagamentos gigantescos, maremotos e naufrágios em mar furioso. Pares de cientistas e pesquisadores criando kitinetes infláveis, vacinas, comida compacta, água potável obtida da água contaminada, processos premiados em universidades com apoio dos governos estaduais. Soluções baratas e práticas. O Duo Coletivo Fugitivo Sound consegue se comunicar com uma dessas arcas e o comandante da gigantesca embarcação lhes dá a coordenada no GPS e assim o casal deixa o jatinho flutuando na  clareira inundada e se manda num barco de competição, barco de remo olímpico servindo de salva-vidas. Entre uma melhora e outra da chuvarada, quer dizer, chovendo muito, muito, muito e chovendo só muito, os dois alcançaram a arca em meio a centenas de pessoas em desespero de abandono e escuridão com filhos pequenos, bebês à deriva boiando, idosos agarrados a sobrinhos ou a desconhecidos, por sua vez agarrados a tratores ou automóveis encalhados ou a pedaços de árvores navegando em velocidade… Coletes salva-vidas jogados pra população desgraçada enquanto voluntários descem com kits de medicamentos, comida compacta, água e sacolas com residências infláveis, cabines flutuantes, instalações ou parangolés, residências efêmeras que podem ser equipadas com kits de água, comida e cobertores. A verdade é que, depois da Noé Sem Fronteiras, o drama dos flagelados aquáticos pelo mundo perdeu sua força, ninguém se preocupa com o fato de que vai perder tudo (no caso muito pouco) pois sabe da salvação via Noé, que além do resgate imediato dava senhas de identidade, documentação e emprego nalgum lugar do mundo próximo à tragédia. A óbvia dor relativa às mortes de entes queridos perdidos em meio ao desastre é o único fator irremediável sempre. A radiação de fundo sonoro do Big Bang é capturada, raptada, decoberta em várias modulações, grooves e ritmos de barulho oculto nos gritos dos náufragos, nas faíscas dos raios, nos estrondos dos desabamentos, no mero roçar de um braço flagelado no outro, nas lágrimas descendo quietas pelas faces atormentadas, no barulho feito pelas sacolas, pelos kits, pelos pacotes de ajuda ficando na água. O Duo Coletivo Fugitivo Sound sabe que a polícia mais secreta e barra pesada está no seu encalço em meio à tempestade, contando com a água da mesma. Noé Sem Fronteiras. Estavam indo rumo à fronteira amazônica, mas tiveram que retornar por causa da tempestade. Agora podem retomar a sua viagem atravessando territórios alagados e submersos do Sudeste e Centro-Oeste rumo ao inferno verde do submundo amazônico. Rumo à festança de nome Pororoca Rave.

///FAUSTO FAWCETT (Rio de Janeiro, 1957) explanou neste início de 2015 o Pororoca rave (Rio de Janeiro: Tinta Negra). O lançamento aconteceu no AudioRebel em fevereiro passado. Outros livos do Fausto estão relançados pela Encrenca, de Curitiba, que também nos presenteou com essa entrevista sensacional. A imagem que ilustra a postagem é de Artur ‘Kjáque assina o projeto gráfico de Pororoca rave.

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