CAMILO BLAJAQUIS o suburbano e seus desgastes

É mais perigoso um menor que pensa do que um menor que rouba.

///1/A vingança do cordeiro amarrado

Esta noite de lua cheia,
deveria ser remédio de santo.
Mas aqui embaixo tudo está muito estranho,
os olhares estão bloqueados, sem viço, agitados,
se veem espelhos de todas as cores,
na vanguarda os sabidos, os amaldiçoados, os malignos.

De repente descem seres que cantam
melodias coniventes a falantes em linguagem penal.
Personagens que não dependem de sinistros signos
de obscuros sintomas, de opacas aspirações.
Cantam que ficções são os pensamentos,
mostram
que estou dentro de um sonho irreal!
grito pra eles:
estou cansado de comprar salva-vidas
que boiam quando não há mar!
Um vento possuído, endemoniado pela vida
sai à caça
da lua cheia.

///2/O suburbano e seus desgastes

Cidade de Buenos Aires, a capital da Argentina, o habitat do meu solado, o cenário dos meus pensamentos, a razão de muitas feridas, o lugar que tem mais marcas publicitárias que bandeiras nacionais, pessoas que a cada instante renovam a moda, seres cada vez mais longe da elevação, devotos da ressaca tecnológica do primeiro mundo, uma avenida que disfarça uma fronteira, trens onde o povo se cansa de viajar como sacos empilhados, porém não haverá protestos enquanto o prêmio for o saldo no fim de mês.
O saldo, saldo, saldo!; razão do caos, fragrância deste lixão, inimigo máximo da pureza.
Cidade criada num beijo de língua da água e da terra, num orgasmo da natureza chamado Rio da Prata. Cidade que graças a mercenários conquistadores, ganhou de graça um lindo nome, quiçá sua maior virtude, quiçá seu único sorriso. Contudo é hoje este nome a última utopia, voltar a sentir e se deleitar de bons, limpos, resplandecentes ares. Não esta fogueira de canos de escape, estes rostos frios que viajam no trem e ônibus, não essa paranoia de medos dos roubos, do desconhecido que habita teu solo também (quer dizer, alguém argentino também).
Cidade de Buenos Aires, rincão de asfalto que te faz esquecer que é parte de um país chamado Argentina, cidade sem identidade, cidade escrava, um estado a mais dos Estados Unidos. Cidadãos que falam na língua do caixa eletrônico, desunião total, egoísmo total, esquizofrenia total. Volto a dizer, a única beleza que esta cidade tem é o nome.

///3/Diferenças invisíveis

A realidade é que estou preso, num cárcere.
O real é que sou livre muito livre.

A realidade diz que falta segurança
O real grita que a violência é consequência
da exclusão, da marginalização, da mentira.

A realidade é que nos queixamos de que tudo é uma merda.
O real é que somos a espécie mais fácil de domar.

A realidade vive submetida a cirurgias plásticas.
O real é isso o que não se pode ocultar com nenhuma maquiagem.

A realidade pode comprar ou vender.
O real não tem preço e vive num mundo onde o dinheiro não vale.

A realidade tem um Deus, tem leis, trabalho e férias.
O real quis se rebelar mas a realidade mandou prender.

A realidade tem responsabilidade, horários e um estado.
O real tem um coração, sentimentos e mãos que desenham.

///4/Panóptico

Vejo a chuva por trás das grades,
que tem um alambrado de frente,
que adiante se vê um paredão,
que em cima tem muitas farpas,
que de fundo está a noite,
e um edifício de sete andares.

Que só tem três janelas acordadas,
E se percebem a solidão e o silêncio absoluto,
que os donos deste manicômio de futuros,
que é formado por celas maduras,
que sangram a cada verão,
que tremem todos os invernos,

que habitam escravos sonhando ser reis,
que são viciados no esquecimento e na morte,
que esperam calados a névoa do destino,
que deambulam pelos códigos de outro mundo,
que chega a noite e olham pelas grades
que tem um alambrado de frente,
que adiante se vê um paredão,
que em cima tem muitas farpas.

///5/Para mudarmos de ilha

“A ninguém faço mal quando fumo maconha” (resistência suburbana)

Você vem bonita
com o cheiro da primavera
que quer ser a rainha
úmida e de cabelo arrumado.

Você se joga numa boa
pra brilhar entre estranhos
pra mudarmos de ilha
pra esquecer de mim e assim sermos sintoma.

Tragar-te mais um pouco é como um doce
não importa que andem te procurando
pra mim não importa, esse é o princípio
se queima que queime, trago-te ao sol!

Se estiver também na arquibancada, melhor beijo te daria
não leve embora meu inconsciente, junta o inconsciente a tua formosura.
Resplandece como um gol, como gritos que me acalmam
não te preocupa com minhas ausências, eu não fui a lado algum.

Você vem encantada, sem olhar os efeitos
como a coincidência do riso na neblina
e sem discussão você vem a mim inteira.

///6/Buenos Aires está nublada

Desencontros, ninguém olha ninguém diz
Caminhantes que caminham pro vazio.
Faça sol, faça nuvem, esta rotina viciante.

Muitas rodas, muito ruído, pouco afeto.
Os apaixonados agora são as minorias.
A nova religião é a ascensão laboral.
Melhor que chova logo, assim penso em outra coisa.

O amor deveria ser como o mate.
Amargo ou doce mas nunca negado.
Preciso de uma dona, uma que seja mentirosa e sincera.
Que o homem nunca tenha a quem não lhe faça bem.

Não ser outra coisa quando já está morto
me arrepender de não ter vivido.
Não é a polícia que causa esta dor…
Não é o delinquente que causa esta dor…
A culpa pela cidade é do cidadão.

///7/Diagnóstico da esperança

“Existe um denominador comum, que colocaremos com maiúscula e que serve de base de análise para todos que pensam os fenômenos sociais: CANSADO DE SER OPRIMIDO” Comandante Ernesto Che Guevara

Estou vivo mas já me assassinaram
eu agora vivo com os mortos, com aqueles
esquecidos, pois acima estão os donos
do mundo e da verdade.
Os ladrões e os loucos, os drogados
E bêbados, eles fabricam minha realidade
Eles possuem a fórmula da felicidade.

À sorte, peço que me deixe
sair desta tumba que já não aguenta
mais lágrimas a derramar.
todos os meus prantos já tiveram seu momento.

É certo que devem me acertar ainda
muitos golpes, isso não importa
tenho guardadas mais de mil cicatrizes.
Vivo com um câncer de angústia
mas ainda sonho com um futuro
que nem sei se será melhor.
Na minha vida curta tive mais
enganos que orgasmos
ainda não sei o que espero
mas espero algo que vem, devagar mas vem.

///8/Prisão

(a Nicolás Guillén)

Comecemos a construir esta prisão
traga-me todas as mãos.
Primeiro, os negros e suas mãos negras;
depois os mestiços que são tipo os negros
e brancos com as mão sujas, também.

Será uma prisão incrível
vai do rio ao caminho das montanhas,
do caminho até o rio eterno
bem pra lá, sobre o horizonte.

— Senhor
— O que trazem?
— Um viciado!
— Idade?
— Onze anos
— Bota pra dentro da cadeia!

— Senhor
— O que trazem?
— Um pomba e seu loureiro
— Bota pra dentro da cadeia!

— Senhor
— O que trazem?
— Robôs, contas bancárias, maletas e um soldado
— Pra fora da cadeia!

— Corações puros?
— Almas rebeldes?
— Mentes débeis?
— Água doce e alimento?
— Bota pra dentro da cadeia!

Que prisão incrível
do rio ao caminho das montanhas,
do caminho ao rio eterno
aqui onde já não há horizontes.

///9/Vendo aviões em Ezeiza

Vendo aviões em Ezeia
mas dentro de uma cela
ainda que hoje eu tenha sorte
a lua descansa na minha janela…

A cumbia dá um beijo
na tristeza enquanto
um mate maquia a fome
e os santos fumam cigarro.

Do mundo nem notícias
nesta ilha de cimento
o tempo se matou rápido
e não sei diferenciar
entre o sol e uma lâmpada

Se deseja o sonho
e o consolo da fuga a outro ambiente
ontem decifrei o motivo deste lugar
transformar o coração em pedra
e as almas em metal.
/
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///CÉSAR GONZÁLEZ aka CAMILO BLAJAQUIS (Morón, 1989) é um poeta e cineasta argentino. Os poemas foram traduzidos a partir de La venganza del cordero atado, seu primeiro livro, publicado em 2010 (Buenos Aires, Editora Corrientes). Diagnóstico esperanza, filme dirigido por ele e lançado em 2013 ganhou enorme repercussão por expor o cotidiano da periferia de Buenos Aires. Assista aqui. González esteve preso dos 16 aos 21 anos, acusado de diversos crimes, em diferentes institutos de reclusão de menores. Foram nessas cadeias que escreveu estes poemas. ///tradução de thadeu c santos

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