NICANOR PARRA agnus dei / traduções de carlito azevedo

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///AGNUS DEI

Cordeiro de deus que tirais os pecados do mundo
Podei informar as horas, por favor.

Cordeiro de deus que tirais os pecados do mundo
Dai-me tua lã para fazer um suéter.

Cordeiro de deus que tirais os pecados do mundo
Deixai-nos fornicar tranquilamente:
Não vos imiscuais nesse momento sagrado.

*
///MANCHAS NA PAREDE

Antes que caia a noite total
Estudaremos as manchas na parede:
Umas parecem plantas
Outras simulam animais mitológicos.

Hipogrifos,
dragões,
salamandras.

Mas as mais misteriosas de todas
São as que parecem explosões atômicas.

No cinematógrafo da parede
A alma vê o que o corpo não vê:
Homens ajoelhados
Mães com seus filhos nos braços
Monumentos equestres
Sacerdotes que erguem a hóstia:

Órgãos genitais que se reúnem.

Mas as mais extraordinárias de todas
São
sem sombra de dúvida
As que parecem explosões atômicas.

*
///O SORRISO DO PAPA NOS PREOCUPA

ninguém tem o direito de sorrir
em um mundo tão podre como este
a não ser que tenha pacto com o Diabo
S.S. deveria chorar oceanos
e arrancar os cabelos que lhe restam
diante das câmeras de TV
em vez de sorrir pra um lado e pro outro
como se em Chile estivesse tudo bem
É tudo muito suspeito senhoras e senhores!
S.S. deveria condenar
o ditador em vez de fazer vista grossa
S.S. devia perguntar
por suas ovelhas desaparecidas
S.S. deveria pensar um pouquinho
foi para isso que os Cardeais
o coroaram Rei dos Judeus
não para andar de farra com o lobo
que ria então da Santa Mãe se acha engraçado
mas que não zombe assim de nós

*
///PEÇO QUE SE SUSPENDA A SESSÃO

Senhoras e senhores:
vim aqui proferir uma simples pergunta:
somos filhos do sol ou da terra?
Porque se somos apenas terra
não vejo motivo para
prosseguir com o filme:
Peço que se suspenda a sessão.

*
///SETE

são os temas fundamentais da poesia lírica
em primeiro lugar o púbis da garota
depois a lua cheia que é o púbis do céu
os bosquezinhos cheios de pássaros
o crepúsculo que mais parece um cartão postal
o instrumento musical chamado violino
e a maravilha absoluta que é um cacho de uvas

*
///POEMAS DO PAPA

1
Acabam de me eleger Papa
Sou o homem mais famoso do mundo

2
Cheguei ao topo da carreira eclesiástica
Agora posso morrer tranquilo

3
Os Cardeais estão chateados comigo
Porque não os saúdo como antes
Estou solene demais?
É que eu sou Papa caramba

4
Amanhã bem cedinho
Me mudo vou morar no Vaticano

5
Tema do meu discurso:
Como triunfar na carreira eclesiástica

6
Chovem felicitações
Todos os jornais do mundo
Publicam minha foto na primeira página

Uma coisa não se pode negar
Pareço muito mais jovem do que sou

7
Não há motivo de espanto
Desde menino eu queria ser Papa
Trabalhei arduamente
Até que meus desejos se realizaram

8
Virgem do Perpétuo Socorro!
Esqueci de abençoar a multidão!

*
///ACÁCIAS

Passeando anos atrás
por uma rua cheia de acácias em flor
soube por um amigo bem informado
que você tinha acabado de se casar.
Respondi que por certo
eu não tinha nada a ver com o assunto.
Mas apesar de nunca ter amado você
– e disso você sabe melhor do que eu –
cada vez que florescem as acácias
– imagina só –
sinto de novo a mesma coisa que senti
quanto me atiraram à queima-roupa
a notícia devastadora
de que você tinha se casado com outro.

*
///ESQUECIMENTO

Juro que não recordo nem seu nome,
mas morrerei chamando-a de Maria,
não por simples capricho de poeta:
por seu aspecto de praça de província.
Naquele tempo eu era um espantalho,
E ela, jovem, tão pálida e sombria.
Ao voltar uma tarde do Liceu
soube de sua morte imerecida,
notícia que me deu tal desengano
que uma lágrima me veio ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, e quem diria!
pois sou uma pessoa de energia.
Se é o caso de pôr fé no que me disse
a gente que me trouxe essa notícia
preciso acreditar nem mais nem menos
que morreu com meu nome nas pupilas,
o que me surpreende, porque nunca
foi para mim nada mais do que uma amiga.
Nunca tive com ela senão simples
relações de estrita cortesia,
nada mais que palavras e palavras
e uma ou outra menção a andorinhas.
Conheci-a em minha terra (minha terra
que já não passa de um túmulo de cinzas),
mas jamais suspeitei-lhe outro destino
que o de jovem tristonha e pensativa.
Tanto foi que passei só a chamá-la
pelo nome celeste de Maria,
circunstância que prova claramente
a exatidão central de minha doutrina.
Pode ser que uma vez tenha beijado,
mas quem é que não beija suas amigas?,
mas levem bem em conta que o fiz
sem saber muito bem o que fazia.
Não negarei, isso sim, que me agradava
sua vaga e muito tênue companhia
que era como o espírito sereno
que às flores domésticas anima.
E não posso ocultar de modo algum
a importância que teve seu sorriso
nem deturpar o favorável influxo
que até nas próprias pedras se exercia.
Agreguemos ainda que da noite
seus olhos foram a fonte fidedigna.
Mas apesar de tudo é necessário
que compreendam que eu não a queria
senão com esse vago sentimento
que a um parente enfermo se dedica.
E contudo acontece, e contudo,
o que até hoje sim me maravilha,
esse inaudito e singular exemplo
de morrer com meu nome nas pupilas,
ela, múltipla rosa imaculada,
ela que era uma lâmpada legítima.
E é que está certa, muito certa, toda a gente
que se passa queixando noite e dia
de que o mundo traidor em que vivemos
vale menos do que roda já detida:
muito mais honrosa é uma tumba,
vale mais uma folha envelhecida,
nada vale, aqui nada perdura,
nem a cor do cristal com que se mira.
Hoje é um dia azul de primavera,
creio que morrerei de poesia,
essa famosa jovem melancólica
não me lembro nem do nome que ela tinha.
Eu só sei que passou por este mundo
como passa qualquer ave fugitiva:
e a esqueci, sem querer e lentamente,
como a todas as coisas dessa vida.

*
///O ANTI-LÁZARO

Morto não se levante dessa tumba
o que você ganharia ressuscitando?
seria uma façanha
e depois
a rotina de sempre
não lhe convém velho não lhe convém

o orgulho o sangue a avareza
a tirania do desejo sexual
as dores causadas pela mulher

o enigma do tempo
as arbitrariedades do espaço

pense bem morto pense bem
já esqueceu como eram as coisas?
ao menor empecilho você explodia
em xingamentos a torto e a direito

tudo lhe incomodava
você já não aturava
nem a própria sombra por companhia

memória fraca velho memória fraca!
seu coração era um monte de escombros
– estou citando seus próprios escritos –
e não restava nada de sua alma

para que voltar então ao inferno de Dante?
para reprisar toda a comédia?
que divina comédia que nada
fogos de artifício – miragens
isca para ratos gulosos
isso sim seria um disparate

felicidade é isso cadáver felicidade é isso
em seu sepulcro não falta nada
e você pode rir dos peixes coloridos

alô – alô está me ouvindo?

quem não preferiria
o amor da terra
às carícias de uma triste prostituta
ninguém de posse dos 5 sentidos
salvo tenha pacto com o diabo

dorme aí homem dorme aí
sem os aguilhões da dúvida
amo e senhor de seu próprio ataúde
na quietude da noite perfeita
livre da rosa e do espinho
como se nunca tivesse estado desperto

não ressuscite por motivo algum
não tem por que ficar nervoso
como disse o poeta
você tem toda a morte pela frente
*
*
*
/AS TRADUÇÕES dos poemas de nicanor parra foram postadas nos perfis do carlito azevedo e da revista inimigo rumor no facebook.

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