KEI MILLER as inquietações de ser um poeta negro na grã-bretanha

1.

Alguns anos atrás, depois de uma sessão de leituras na Irlanda, um poeta britânico veterano escreveu sobre mim de uma maneira depreciativa em seu blog. Ele me acusou de lançar mão da “carta da raça”. Eu havia lido uma sequência de poemas chamados “In this country” [“Neste país”]. Os poemas exploram uma série de sentimentos que um corpo caribenho e negro pode sentir ao viver no Reino Unido pela primeira vez – a não familiaridade com o frio; a profunda familiaridade com espaços como os de Brixton ou Moss Side; a cruel aceitação de que, apesar de toda a solidão da Grã-Bretanha, esse poderia ser um lugar melhor do que aquele que foi deixado para trás; as discretas e indiscretas experiências de racismo. Essas eram as últimas questões a preocuparem o poeta veterano. Colocando cruamente, ele pensou que eu estava sendo um imigrante ingrato. Talvez ele tenha me confundido com algum poeta negro que tenha chegado ao ponto de não fazer uma apresentação de poesia, mas uma apresentação de identidade – o tipo problemático de poema que grita Ó! SOU PRETO! VOCÊ TEM QUE ME APLAUDIR PELA MINHA NEGRITUDE! SE NÃO APLAUDE, É RACISTA!

O poeta negro que escreve sobre as suas experiências cotidianas – algumas negativas – encara esse risco constante de ser aplaudido com fervor ou silenciosamente rejeitado. Isso faz parte da inquietação de ser um poeta negro na Grã-Bretanha. Sim, sim – o poeta negro imagina o público dizendo – já ouvimos e já dançamos essa música. Vê se cresce! Saia de si mesmo! Às vezes, a inquietação é uma inquietação útil, já que todo poema tem o seu mundo e a sua história de clichês que precisam ser reconhecidos, evitados e, então, renovados.

Sendo bacana com esse poeta veterano (em encontros subsequentes, ele sempre foi bacana comigo), eu diria que, sentado na plateia, ouvindo ao invés de ler os poemas, posso entender por que algumas das complexidades podem ter se perdido para ele – por que ele pode não ter apreciado o fato de os poemas não baterem sempre na mesma tecla. E, de fato, sou grato pelo seu gesto de realizar uma crítica pública que muitos podem ter pensado em fazer, mas que, por educação, não expressaram.

Isso aconteceu nos meus primeiros meses na Grã-Bretanha, foi uma coisa meio disciplinadora. Isso me disse o seguinte (de novo, colocando cruamente): Kei, você é negro, mas não aja como negro.

/

2.

Este não será um texto de blog coerente. Pulo de história para história. Essa de agora aconteceu em outra noite, anos antes, e em uma noite que não tinha nada a ver com poesia. Eu estava caminhando pela rua com um amigo escocês. Ainda desconhecido para mim, meu amigo, um exímio músico de formação clássica, ouvia com uma irritação crescente uma música que eu cantarolava baixinho para mim mesmo. Finalmente, quando ele não aguentava mais, interrompeu: “Kei, você poderia pelo amor de Deus parar de cantar essa música de preto?”

Isso foi há um ano atrás, mas sempre volto àquele momento, continuo voltando na minha cabeça – a essa sugestão – a esse lembrete de que a minha negritude, em determinados contextos, é uma coisa ofensiva e inapropriada, uma coisa que deveria ser controlada e mantida à distância. Tento não fazer aquilo que um escritor pode fazer – fazer disso um grande símbolo. Porém, novamente, é difícil tornar aquele momento maior do que foi. Por si mesmo, foi algo enorme. A discussão que se sucedeu foi passional. O fim da amizade, que veio em seu rastro, foi doloroso.

Na hora, eu não respondi de imediato. Em vez disso, olhei em volta e mordi meu lábio. Imaginei os meus lábios enormes e caricaturados. Imaginei o meu rosto estampando uma apresentação de menestréis brancos com a cara pintada de preto.

Então, eu me concentrei em coisas irrelevantes, como o cheiro da noite, como os carros passando e o brilho dos faróis. Me concentrei em coisas simples, como tentar não chorar. É estranho que agora, um ano depois, eu não consiga me lembrar do cheiro daquela noite, apesar de isso ter se mostrado tão importante.

De repente, me ocorreu que o comentário ofensivo provavelmente não tinha a intenção de ser ofensivo. Talvez fosse apenas humor politicamente incorreto, do qual sempre fui fã.

Não. O meu amigo, de fato, falou o que pensa. Ele não achava a sua postura ridícula. A sua irritação era genuína. Ele tinha opiniões firmes sobre música – opiniões que ele acreditava ter adquirido depois de anos de estudo e prática. Seja lá o que eu estivesse fazendo da música, seja lá quais fossem as entonações que eu dava à melodia, tratava-se, contudo, da minha negritude incrustada na música – isso irritava algo muito profundo dentro dele.

Eu estava calmo. Somente depois me ocorreu que eu poderia ter gritado com ele ou estourado ou batido nele e todas essas respostas seriam perfeitamente cabíveis. A barreira que eu me coloquei talvez tenha sido apenas outra forma de os corpos negros sempre estarem tentando se disciplinar, de se fazerem aceitáveis mesmo frente ao racismo. Eu tentei explicar, cuidadosa e racionalmente, por que o comentário dele havia sido doloroso para mim, para as comunidades negras e para os artistas em geral – por que era construído em determinadas ideias culturais de como uma nota LIMPA ou uma nota PURA deveria soar e, por extensão, de como alguém poderia distorcer, sujar ou estragar essa nota. Nisso está a noção de o que é NORMAL e de como isso pode ser transformado em algo ANORMAL.

Na música negra norte-americana há essa ideia de linha – talvez não apenas a linha da música, mas as linhas culturais e raciais nas quais devemos cair ou as linhas que devemos evitar. Dar-se liberdade, gorjear, inserir certas entonações de jazz ou de gospel a essa linha é “incomodar a linha”. O professor Cheryl Wall realoca esse conceito como uma forma de entender as poéticas negras. O ato de escrever poesia negra é um ato de incomodar a linha. É algo perigoso a se fazer. Quase sempre, isso gera inquietação.

/

3.

Acadêmicos negros, artistas negros, poetas negros – frequentemente precisam chegar a um acordo com esse dilema – de que o nosso sucesso na vida ou aceitação pelos academias nas quais trabalhamos é, muitas vezes, diretamente proporcional ao grau em que nós aparentamos ser produtos improváveis das culturas que, de fato, nos produzem.

Aqui vai outra história verídica: em Manchester, realizo uma leitura. Para mim, soa como uma leitura bem-sucedida. A plateia parece concordar. Um cavalheiro mais velho chega depois à mesa para que eu assine o seu livro. Ele balança a cabeça, sorrindo, enquanto olha para mim. “Como foi”, pergunta – seu rosto é amável e gentil – “ter esse seu talento e crescer em um lugar como a Jamaica?” E isso apesar dos exemplos de Lorna Goodison ou Dennis Scott, ou outros escritores como Kamau Brathwaite, V.S. Naipaul ou Derek Walcott.

Para esse homem, eu sou um produto improvável.

Sou o produto improvável do Caribe.

Na Nova Zelândia, há poucos meses atrás, realizei algumas leituras e dei entrevistas. Tudo correu bem. Um dia após isso tudo, estou andando pelas ruas de Wellington e um homem esbarra comigo. Ele pega a minha mão e a aperta. Seu rosto também é amável e gentil. Ele me diz: “Eu adorei te ouvir! E é incrível – a disparidade impressionante entre a sua eloquência e a sua aparência física.”

Para esse homem, eu sou um produto improvável.

Sou um produto improvável de pele negra e dreadlocks.

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4.

Parece que o ato de escrever certas experiências negras precisa ser um ato de tradução – tal como traduzirmos de uma língua para outra. A negritude por si só ainda é vista como um lugar fora da linguagem ou, pelo menos, fora da linguagem refinada da poesia. A negritude supostamente existe no espaço da extrema visceralidade – um espaço de grunhidos e êxtase. Nos é exigido traduzir a negritude – torná-la palatável. Mas, é claro, muitas das minhas experiências não são palatáveis.

E não sei se o velho ditado sobre a economia da tradução é verdadeiro – se alguma coisa sempre é perdida ou não. As coisas não são tão simples. Há ganhos e perdas. E há outros processos que não têm nada a ver com ganhos ou perdas. A metáfora é insuficiente. Mas isso parece ser importante, mantermos a negritude sob controle.

Só que às vezes nós esquecemos de quem somos. Às vezes, a negritude penetra – assim, quando você nem sabe dela. Pode acontecer quando, certa noite, você está descendo uma rua e começa a cantarolar para si mesmo. E, é claro, quando somos nós mesmos para nós mesmos. Podemos nos esquecer de que tem alguém observando, ouvindo – e que para os seus olhos ou ouvidos nós podemos, subitamente, termos nos tornado negros demais.

Nesse sentido, as inquietações de ser um poeta negro na Grã-Bretanha são obviamente uma parte ou parcela das amplas inquietações de ser negro na Grã-Bretanha.

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/KEI MILLER é um poeta jamaicano. Seu livro The Cartographer Tries to Map a Way to Zion (Londres: Carcanet, 2014) venceu recentemente o Foward Prizes for Poetry em 2014 (feito que lhe rendeu uma boa grana, até que enfim).

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/tradução de thadeu c santos e vinícius melo

/o original.

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