MANIFESTO pedro lemebel

MANIFESTO
(falo por minha diferença)

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou um viadinho disfarçado de poeta
Não preciso de disfarces
Aqui está a minha cara
Falo por minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão estranho
Me irrita a injustiça
E suspeito desse baile democrático
Mas não me fale de proletariado
Porque ser pobre e viado é pior
Tem que ser ácido para suportar
É dar uma volta nos machinhos da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho desmunheca
É ter uma mãe de mãos rachadas pelo cloro
Envelhecidas da limpeza
Acalentando um doente
Por maus costumes
Por má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E por trás o socialismo
E então?
Que farão conosco companheiro?
Nos amarrarão com cordas em sacos
com destino a uma casa para aidéticos em Cuba?
Nos colocarão em algum trem sem destino
Como o barco do General Ibañez
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou à costa
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso os inferninhos
Brindaram com uma lágrima negra
Aos baitolas devorados pelos caranguejos
Esse ano que a Comissão de Direitos Humanos
não se lembra
Por isso companheiro pergunto
Existe ainda o trem siberiano
Da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando minha voz se apresenta muito doce
E você?
Que fará com essa lembrança das crianças
Nos masturbando e outras coisas
Nas férias em Cartágena?
O futuro será em branco e preto?
O tempo em noite e o dia laboral
sem ambiguidades?
Não terá um viadinho em alguma esquina
desequilibrando o futuro de seu homem novo?
Vão nos deixar bordar pássaros
nas bandeiras da pátria livre?
O fuzil deixo pra você
Que tem o sangue frio
E não é medo
O medo de enfiar facas
Nos porões sexuais por onde andei
Foi passando
E não se sinta agredido
Se lhe falo sobre essas coisas
E olho pro seu volume
Não sou hipócrita
Por acaso os peitos de uma mulher
não lhe fazem baixar o olho?
Você não acredita
que sozinhos na serra
alguma coisa entre a gente iria acontecer?
Ainda que depois me odeie
Por corromper sua moral revolucionária
Tem medo que se homossexualize a vida?
E não falo de meter e tirar
E tirar e meter apenas
Falo de ternura companheiro
Você não sabe
Como custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é arcar com essa lepra
As pessoas mantêm as distâncias
As pessoas entendem e dizem:
É viado, mas escreve bem
É viado, mas é um bom amigo
Super gente fina
Eu aceito o mundo
Sem pedir seja gente fina
Mas riem, da mesma forma
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acha que eu penso com a bunda
E que no primeiro esculacho da CNI
eu ia soltar tudo
Não sabe que a hombridade
Nunca aprendi nos quartéis
Minha hombridade, a noite ensinou
Atrás de um poste
Essa hombridade que você se gaba
Foi imposta no regimento
Um milico assassino
Desses que ainda estão no poder
Minha hombridade não recebi do partido
Porque me rechaçaram com risadinhas
Muitas vezes
Minha hombridade, aprendi participando
Da dureza desses anos
E se riram de minha voz aviadada
Gritando: vai cair, vai cair
E ainda que você grite como um homem
Não conseguiu me derrubar
Minha hombridade foi a mordaça
Não foi ir ao estádio
Sair na porrada pelo Colo-Colo
O futebol é outra homossexualidade encoberta
Como o boxe, a política e o vinho
Minha hombridade foi mastigar a chacota
Comer a raiva para não matar todo mundo
Minha hombridade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Não ofereço a outra face
Ofereço o cu companheiro
E essa é minha vingança
Minha hombridade espera pacientemente
Que os machos fiquem velhos
Porque a essa altura do campeonato
A esquerda rasga seu cu largo
No parlamento
Minha hombridade foi difícil
Por isso não subo neste trem
Sem saber onde vai
Eu não vou mudar pelo marxismo
Que me rechaçou tantas vezes
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que você
Não vou mudar apenas
Por que os pobres e os ricos…
Conta outra!
Muito menos porque o capitalismo é injusto
Em Nova York os viados se beijam na rua
Mas essa parte deixo com você
Que tanto lhe interessa
Que a revolução não se apodreça por completo
Deixo a você esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as gerações futuras
Há tantas crianças que vão nascer
Com a asinha quebrada
E eu quero que voem, companheiro
Que sua revolução
Lhes dê um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar

PEDRO LEMEBEL
santiago do chile
1986

tradução: thadeu c santos e carolina leal

////baixe o livro Loco afán: crónicas de sidario, de Pedro Lemebel
////esta tradução foi provocada por um post do poeta fabiano calixto, veja o original do poema e envie sugestões para melhorar a tradução!

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