CARTOLA sete poemas

/1///O MEU PEDIDO

Bem vês que atendi o teu pedido
E assim forçou-me a fazer
outro agora
Depois de leres, gostes
ou não gostes
Por favor, rasga e põe fora.

*

/2///OBSCURIDADE

Passei pelo mundo sem ser percebido,
Ouvindo a tudo
E a nada dando ouvido.
Segui pelo caminho que tinha à minha frente,
Mas não encontrei a estrada
Desejada em minha mente.
Nada fiz que aos outros tivesse interessado.
Tudo que fiz, foi por dever ou acovardado.
Por nada tive paixão,
Mas nada fiz por ódio,
Se ausência de sentimentos
Não significa maldade
Simplificando a história:
Vivi na obscuridade.

*

/3///NÃO SEI

Eu não sei se corri
Ou se andei em passos lentos
Nem senti os ventos
Se foram bons ou maus
Não sei dizer
Tinha vontade de novo
Os mesmos caminhos percorrer

Partindo do ponto inicial
De onde a primeira vez parti
Talvez sentiria agora
Coisas da natureza
Que outrora não senti

*

/4///QUERO MAIS RUGAS NAS FACES

Raros os que não me chamam
De velho, velho baldado
Curvo a cabeça calado
Satisfeito com que sou

Deixem que os dias se passem
Quero mais rugas nas faces
Quero que o corpo se incline
Com o peso de minha idade

Tive também mocidade
Mocidade de incertezas
Quantas vezes me faltaram
O pão sobre minha mesa

Há coisas que da memória
Não podem fugir jamais
Eram os tempos que os filhos
Dialogavam com os pais

Será senhor que é pecado
Ser velho assim como sou
Será que esta juventude
Pensa que o tempo parou

Ó poderoso, ó mestre
Iluminai as estradas
Para que cheguem ao final
Com a vida realizada.

*

/5///REMORSO

Se eu te encontrar um dia agonizante,
Morrendo em desespero de remorsos,
Pelo mal que me fazes a todo instante,
Eu rezarei por ti um pai-nosso.

E se pensares o quanto me ultrajaste
E me pedires perdão, eu dar-te posso
Em louvor a algum bem que me causaste
Eu rezarei por ti um pai-nosso.

E no último suspiro está previsto,
Não terás coragem para ser sincero.
Negarás tudo. “Eu não disse isto”.

Se te faltar forças, amigo, eu posso
Levar-te a última morada
E rezar por ti um pai-nosso.

*

/6///TUA CARTA

Foi que nem tua carta
Nela dizia estares farta
Dos beijos que eu te ofertava
Que eu perdoasse tuas juras
Mas que em busca de aventuras
Para a cidade voltavas
Nestes dois anos
Eu procurei na bebida
A minha dor ocultar
E hoje nos encontramos
Tu és uma reminiscência
E eu sou um ébrio vulgar
Inda ontem reli tua carta
(Que forte emoção que tive!)
O papel ficou em declive
Nas minhas mãos sobre a mesa
Ao reler aquele trecho
“Embora eu te abandone”
Rolou dos meus olhos lágrimas
E foi com gotas d’água
Doídas da minha mágoa
Molhar, manchar o teu nome
A lágrima é confidente
Dos olhos e do coração
Talvez tivesse razão
Do teu nome apagar
Não convém fazer romance
Do que deixamos atrás
Hoje ainda mesmo ébrio
Teus beijos não quero mais.

*

/7///MANGUEIRA

Quando à tarde
O sol descamba
Vem a lua pro terreiro
Lua em forma de pandeiro
Ritmando prateada
Mais distante as estrelas
Pequeninas, quase nada
Tem-se a impressão que Mangueira
Seja um conto de fada.

////extraído de CARTOLA: OS TEMPOS IDOS. Marília T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho. Funarte, 1983

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